
Grupos peronistas e da esquerda argentina exigem que o chanceler Quirno revele os compromissos que assumiu em relação à reedição da Operação Condor com os EUA compartilhando informações de inteligência sobre ativistas locais
LUCIANA BERTOIA/PÁGINA12
O chanceler Pablo Quirno anunciou que o governo de Javier Milei atuará em coordenação com os Estados Unidos na nova cruzada de Donald Trump contra qualquer coisa que ele rotule de “terrorismo de esquerda”. A oposição passou a exigir explicações depois que o Departamento de Estado convocou mais de 60 países para uma reunião na qual autoridades fizeram referência à década de 1970 e afirmaram que era hora de, mais uma vez, “esmagar” movimentos dissidentes. Fontes de diversos setores confirmaram ao jornal Página/12 que pressionariam por medidas exigindo que Quirno explicasse a natureza de seus compromissos e se informações de inteligência sobre grupos ou ativistas locais já haviam sido compartilhadas com Washington.
Na última quinta-feira (16), o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, convocou uma cúpula na qual defendeu a necessidade de identificar e mapear a ameaça representada pelo chamado terrorismo de esquerda. “Devemos reconstruir nossa arquitetura de contraterrorismo para derrotá-lo, assim como fizemos juntos no passado”, afirmou. Para tanto, ele defendeu o compartilhamento de inteligência e a atuação conjunta das forças de segurança.
Há vários meses, o governo Trump vem reformulando sua política de contraterrorismo, priorizando, nesse processo, o combate à esquerda. Para tanto, autorizou, por meio do chamado Memorando 7, esforços coordenados entre forças de segurança e agências de inteligência. A Casa Branca chegou a incluir protestos contra a Suprema Corte entre essas ameaças “radicais”. Esse ponto foi detalhado por Stephen Miller, um assessor de Trump que participou da reunião. Em suas declarações, Miller chegou a afirmar que o sistema jurídico é inadequado para enfrentar esse suposto ressurgimento do terrorismo.
SEQUESTRO, TORTURA, ASSASSINATO E DESAPARECIMENTO FORÇADO
Durante a cúpula, houve discussões recorrentes sobre eventos da década de 1970. Rubio chegou a citar os Montoneros e os Tupamaros como exemplos das “ameaças” combatidas no passado. Esse “combate” resultou em ditaduras que sequestraram, torturaram, assassinaram e promoveram o desaparecimento forçado de pessoas.
Inevitavelmente, foram feitas comparações com a Operação Condor, cuja reunião de fundação ocorreu em 1975, no Chile – país onde Augusto Pinochet havia tomado o poder com o apoio da CIA. “A Operação Condor foi um acordo entre as ditaduras então no poder na Argentina, no Chile, no Uruguai, no Paraguai, na Bolívia e no Brasil, visando organizar um sistema de repressão, perseguição e extermínio contra opositores políticos de esquerda em toda a região”, disse ao Página/12 o juiz Adrián Grünberg, que presidiu o tribunal responsável pelo julgamento dos crimes dessa conspiração criminosa regional.
“Esse plano concebeu um esquema que envolvia diversos tipos de operações: o intercâmbio de informações sobre opositores políticos – incluindo o sinal verde para o transporte clandestino de pessoas sequestradas de um país para outro – e a autorização para que grupos de inteligência ou agentes das forças armadas dos diferentes países atuassem em qualquer um dos outros Estados-membros. Por fim, outra fase do plano envolvia a formação de forças-tarefa para viajar – utilizando documentos falsos – a outros países a fim de realizar sequestros ou assassinatos”, acrescentou Grünberg.
“O que aconteceu no Departamento de Estado é muito perigoso. Eles vão iniciar uma caça às bruxas”, afirma o deputado nacional Agustín Rossi, ex-ministro da Defesa e ex-supervisor da Agência Federal de Inteligência (AFI).
“A EXTREMA DIREITA ESTÁ PASSANDO DA RETÓRICA MACARTHISTA À AÇÃO”
Para Rossi, essa cruzada liderada por Rubio – que busca se posicionar dentro do Partido Republicano como sucessor de Trump, com uma postura intervencionista – torna-se ainda mais arriscada devido ao chamado Escudo das Américas, uma coalizão militar da qual a Argentina também participa. “A extrema direita está passando agora da retórica macarthista para a ação. É por isso que vamos exigir explicações sobre o motivo da ida de Quirno e quais compromissos foram assumidos”, disse ele a este jornal.
Dentro da Casa Rosada, o discurso proferido por Rubio e outras autoridades do governo Trump foi celebrado. O assessor Santiago Caputo tuitou que a fala estava alinhada à plataforma que Milei vinha defendendo, em grande parte sozinho, há quase uma década. “Se o Ocidente não identificar claramente os inimigos que enfrenta e adaptar suas instituições de acordo, estará condenado a morrer”, escreveu o assessor que comanda os bastidores da Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE).
Myriam Bregman, deputada da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidade, (FIT-U) também está trabalhando em uma solicitação formal para que o governo divulgue o objetivo da visita do chanceler e informe se houve compartilhamento de dados com os Estados Unidos. Segundo o The Washington Post, o Departamento de Estado solicitou, no mês passado, informações a cerca de 20 embaixadas – incluindo a da Argentina – sobre grupos ou ativistas ligados ao “terrorismo de esquerda”.
ESTRATÉGIA DE INTERVENÇÃO DOS EUA EM TODA A AMÉRICA LATINA
“Isso sinaliza uma estratégia de intervenção em processos políticos por toda a América Latina”, afirmou Bregman. “Devemos nos articular com organizações de direitos humanos e com todos aqueles que se opõem a esse ataque às liberdades democráticas mais básicas. Precisamos dar uma resposta contundente, assim como fizemos em relação às prisões de manifestantes que protestavam contra a e Lei de Bases [amplo pacote de reformas econômicas e estatais proposto pelo presidente argentino]- pessoas que as autoridades também tentaram rotular como terroristas. Estamos diante de uma situação de grave preocupação”, acrescentou ela em declarações a este veículo.
Os alertas não vêm apenas da oposição. Rubio foi bastante vago ao definir o que considera ser terrorismo político de esquerda. Em seu discurso, referiu-se a um “ressentimento venenoso, disfarçado na linguagem de igualdade, justiça e libertação”.
Segundo o Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), “dado o conteúdo do discurso de Rubio, com sua retórica antimarxista e ataques à esquerda em geral, tudo indica que a perseguição poderá se estender a grupos de oposição”.
O CELS também vem alertando há tempos que o governo busca implementar uma agenda antiterrorismo. Fez isso em junho de 2024, quando a Presidência publicou no Twitter que “grupos terroristas [estavam] atacando o Congresso” durante protestos contra a Lei de Bases. Em certo sentido, Milei tenta resgatar uma agenda centrada na “ameaça esquerdista violenta” – uma narrativa que estava ausente das agências de segurança desde a década de 1990.
Nos Estados Unidos, o foco está voltado para grupos “Antifa”. Patricia Bullrich alinhou-se a essa cruzada. Em maio do ano passado, enquanto ainda chefiava o Ministério da Segurança, o Departamento de Inteligência contra o Crime Organizado da Polícia Federal Argentina (PFA) informou que um ilustrador estava usando as redes sociais para fazer ameaças de morte contra a então ministra e incitar violência coletiva contra a PFA. O homem foi preso e, posteriormente, acusado de fazer ameaças e incitar violência coletiva. O governo associou-o a grupos “Antifa” porque uma bandeira ligada ao movimento foi encontrada durante a busca em sua residência.
MILEI CRIOU UM CENTRO NACIONAL DE “CONTRATERRORISMO”
Em outubro passado, o governo estabeleceu um Centro Nacional de Contraterrorismo (CNA) para intervir no que denomina “ciclo terrorista” – um processo que abrange propaganda, radicalização, recrutamento, logística, financiamento e o planejamento e execução de atos terroristas.
O CNA opera sob a égide da SIDE e foi um foco central de uma comunicação recente enviada ao governo por quatro relatores especiais das Nações Unidas, que afirmaram que os critérios utilizados pela Casa Rosada para designar organizações como terroristas são imprecisos e excessivamente amplos.
“Medidas antiterroristas vagas e excessivamente amplas podem levar à aplicação arbitrária e a abusos – inclusive contra atividades legítimas da sociedade civil – e podem restringir o exercício de direitos fundamentais”, afirmaram os relatores Ben Saul (terrorismo), Gina Romero (reunião pacífica), Andrea Bolaños Vargas (defensores dos direitos humanos) e Albert Barume (povos indígenas).
