
“Ocorreu uma operação cirúrgica de apenas duas ou três horas na qual sequestram o presidente, o transferem para o exterior e, além disso, tomam o controle do país”, aponta a renomada jornalista argentina
Stella Calloni (Entre Ríos, Argentina, 1935) é uma renomada jornalista, escritora, poetisa e pesquisadora especializada em política internacional. Reconhecida como uma das vozes mais destacadas do jornalismo investigativo na América Latina, foi correspondente de guerra na América Central e no Caribe e é autora de valiosos estudos sobre os processos políticos da região, com destaque para suas investigações de referência sobre a Operação Condor (Los años del lobo, Pacto criminal). Ao longo de sua extensa trajetória, na qual foi agraciada com o Prêmio Latino-Americano de Jornalismo José Martí e o Prêmio Rodolfo Walsh, caracterizou-se por seu olhar crítico, sua firme defesa dos direitos humanos e um constante compromisso ético na análise geopolítica do continente. As fortes declarações políticas de Stella Calloni publicadas no Pensamento Crítico certamente abrirão um rico debate internacional.
LOIS PÉREZ LEIRA *
O que está acontecendo na Venezuela?
Stella Calloni: Para mim, isso escancara a fragilidade absoluta das esquerdas e dos intelectuais; era algo evidente. O que estamos testemunhando hoje guarda relação direta com o fato de termos aceitado em silêncio os acontecimentos de 3 de janeiro de 2026. Ninguém ofereceu uma explicação convincente sobre por que ocorreu o que ocorreu: uma operação cirúrgica de apenas duas ou três horas na qual sequestram o presidente, o transferem para o exterior e, além disso, tomam o controle do país.
Você faz um contraste muito duro entre a capacidade de resposta militar da Venezuela e outros episódios históricos da região. Por que essa falta de resistência lhe parece tão incompreensível?
Stella Calloni: É incompreensível. A Venezuela conta com um exército numeroso, dotado de radares, armamento e uma estrutura defensiva que o próprio Chávez deixou organizada. Não era uma nação indefesa. Pensemos no caso do Panamá quando foi invadido pelos Estados Unidos: era um país de apenas dois milhões de habitantes, com o Comando Sul operando dentro de seu próprio território e com uma força militar de apenas 4.000 efetivos em formação, sem aviação nem armamento pesado. Ainda assim, no Panamá o povo e as forças armadas resistiram com o que tinham à mão. Por isso é inadmissível que aqui não tenha havido resistência, exceto pelo heroico exemplo de 32 companheiros cubanos e algumas ações isoladas em quartéis desprovidos de defesa. Uma ação dessa magnitude jamais poderia ter sido executada sem cumplicidade ou um acordo interno.
Em sua análise, o impacto não é apenas militar ou político, mas também econômico e institucional. Como você avalia os passos dados imediatamente depois?
Stella Calloni: Em uma semana instalam uma presidenta interina cuja primeira medida é ceder a administração dos recursos petrolíferos ao Tesouro dos Estados Unidos. E pretendem justificar isso alegando que são “concessões necessárias para salvar o povo”. Salvar quem? Com a presença do Comando Sul no território e a implantação do chamado “consenso Trump”, será classificado como terrorista qualquer um que tente defender a soberania de sua pátria. O inimigo interno passamos a ser todos nós.
Há um apelo direto em seu discurso à liderança política e ao papel da memória histórica. Você sente que se traiu o legado de figuras como Hugo Chávez ou Fidel Castro?
Stella Calloni: A traição a Chávez é absoluta e total. Por isso apagaram seu legado do mapa e agora tentam fazer o mesmo com a figura de Bolívar. Buscam erradicar a memória histórica de nossos povos, arrasar com as conquistas sociais e deixar uma sociedade empobrecida e desesperada. A esquerda se amparou naquele projeto extraordinário do início do século, mas aquela etapa se sustentava pela estatura de uma liderança histórica com Fidel Castro e Hugo Chávez à frente. A liderança atual acreditou que era possível subsistir participando de cúpulas, pronunciando discursos eloquentes e redigindo documentos. A política exige ação, e aqui não se fez nada.
Você também menciona com muita preocupação a situação humanitária em Cuba. O que acha que está falhando na solidariedade internacional com a ilha?
Stella Calloni: Estamos adormecendo. Em Cuba a população está sofrendo um desgaste desgarrador, uma asfixia dramática que lembra a situação de Gaza. Por mais ajuda pontual que se envie, falamos de um país de quase dez milhões de habitantes paralisado, sem insumos energéticos básicos e com um sistema hospitalar no limite. Não podemos nos limitar a lamentar pelos cantos enquanto isso acontece.
Para concluir, qual é seu chamado à ação diante desse panorama?
É hora de se mobilizar e agir. E quero ser clara: não estou fazendo um chamado à insurreição armada nem a nada semelhante. Falo de romper a inércia do círculo fechado em que nos debatemos entre discursos impecáveis que não transformam a realidade. É preciso se autofinanciar se necessário, sair às ruas, articular com as bases, interpelar os centros de poder e demonstrar ao império que seguimos vivos.
*Coordenador Regional do Sovintern para a América Latina e o Caribe
