Para Gloria Inés Ramírez Río, medidas como as “reformas trabalhista, previdenciária e agrária” iniciadas pelo presidente Gustavo Petro, dão segurança e credibilidade no voto em Iván Cepeda e Aida Cuiqué para “aprofundar as transformações no segundo governo da mudança”

“A construção da paz e as reformas sociais são nosso grande triunfo pois significam a dignificação do trabalho, a valorização da economia popular, solidária e comunitária, colocando os interesses coletivos acima da ganância do capital”, afirmou a ex-ministra do Trabalho da Colômbia, Gloria Inés Ramírez Río, na VIII Missão Internacional de Verificação da Implementação da Perspectiva de Gênero no Acordo de Paz.
No encontro que reuniu dezenas de lideranças femininas, nesta segunda-feira (25), no auditório do Centro Cultural Gabriel Garcia Marquez, em Bogotá, a líder comunista, ex-senadora, ex-presidente da Federação Colombiana de Educadores (Fecode) e ex-diretora da Central Unitária dos Trabalhadores (CUT) destacou “a relevância do enfoque de gênero para avaliar o Acordo de Paz” assinado em novembro de 2016 entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Conforme a Comissão da Verdade, mais de 450 mil vidas foram perdidas em mais de meio século de conflito.
O fato, assinalou Gloria Inés, é que a violência impactou de forma diferenciada as mulheres, “deixando muitas mães viúvas e órfãs”. “Elas, mais do que nunca, necessitam do apoio do Estado e de alternativas para seguirem em frente, sem depender de caridade nem submetidas à extrema pobreza”, apontou.
Diante dessa realidade, sob a responsabilidade da Federação Democrática Internacional de Mulheres (Fdim), a Organização das Nações Unidas (ONU-Mulheres)- dedicada a promover a igualdade de gênero e o empoderamento feminino – e a Suécia, a Missão tem por objetivo acompanhar o histórico Acordo.
Teremos três momentos, explicou Gloria Inés: “o primeiro é a reflexão sobre a economia popular, o gênero e a paz e, sobretudo, o espaço para as mulheres; o segundo será a visita aos territórios, onde iremos à região de Sumapaz – localizada na zona rural de Bogotá – observando as zonas de reserva natural e sua incidência na transformação da vida cotidiana das mulheres; e o terceiro será escutar a todas as instituições que foram criadas com o Acordo de Paz, que tem relação com o acompanhamento e o monitoramento”. Desta forma, disse, será feito um informe e apontadas recomendações para aprimorar as medidas.
A visitação à Sumapaz, conforme várias lideranças femininas descreveram, goza de profundo significado pois abrange décadas de disputas agrárias, violência sociopolítica e armada pelo controle territorial dessa área estratégica. O local abriga o maior páramo – ecossistema de alta montanha, acima da linha das florestas e abaixo das neves perpétuas – do mundo, que funciona como “esponjas vivas”, absorvendo e liberando água lentamente para o centro do país, sendo uma reserva vital de biodiversidade.
“O TRABALHO NÃO DEVE SER EXPLORAÇÃO E A VELHICE NÃO DEVE SER ABANDONO”
Gloria Inés tem reiterado em seus pronunciamentos que são essenciais avanços conquistados como as “reformas trabalhista, previdenciária e agrária” iniciadas pelo presidente Gustavo Petro, em 2022, que dão segurança e credibilidade no voto em Iván Cepeda e Aida Quilcué no próximo domingo (31) para “aprofundar as transformações no segundo governo da mudança”.
Iniciativas como a reforma da Previdência (Lei 2381 de 2024), assinalou a dirigente, dotaram o país de um sistema multipolar para ampliar a cobertura, fortalecer as aposentadorias e garantir uma renda digna a milhões de idosos que trabalharam a vida inteira sem se aposentar. ‘Este é o significado profundo das reformas: que o trabalho não deve ser exploração e a velhice não deve ser abandono. Em outras palavras, trabalho digno e decente para todos e uma velhice com dignidade”, frisou.
Do ponto de vista das mulheres, Gloria defendeu a existência de um sistema nacional de assistência, sem o qual não pode haver igualdade de gênero no mercado de trabalho. “As mulheres não podem continuar a arcar com o fardo do trabalho não remunerado que sustenta a economia”, assinalou Gloria, ainda mais quando esse trabalho contribui com 20% do Produto Interno Bruto (PIB).
Conforme a ex-ministra, o governo do Pacto Histórico representou transformações que colocaram o trabalho no centro da democracia. “Durante décadas, nos disseram que, para gerar empregos, tínhamos que baratear a mão de obra, eliminar direitos, flexibilizar o trabalho, reduzir a jornada e enfraquecer os sindicatos. Demonstramos que o desenvolvimento não pode ser construído sobre a precarização”.
“A Lei 2466 de 2025, fortaleceu a segurança no emprego, ampliou a proteção contra a terceirização abusiva, reconheceu os direitos dos aprendizes do Serviço Nacional de Emprego, avançou as garantias para plataformas digitais, restabeleceu gradualmente o pagamento do turno noturno, do domingo e dos feriados, e reafirmou que o contrato de trabalho deve ser a regra quando houver exigência de subordinação. O adicional de domingo, por exemplo, aumentou de 75% para 80% em julho de 2025, chegará a 90% em julho de 2026 e a 100% em julho de 2027”, explicou.
“AVANÇAR NA NEGOCIAÇÃO COLETIVA E NA POLÍTICA DE EMPREGO PARA MULHERES E JOVENS”
De acordo com a líder comunista, um segundo governo progressista deve adotar uma política abrangente contra a informalidade, “porque a Colômbia ainda tem mais da metade de sua população empregada trabalhando no setor informal”. “É preciso avançar em cinco tarefas principais: formalização genuína nas áreas rurais e urbanas; inspeções trabalhistas fortes e localizadas; proteção efetiva para trabalhadores domésticos, rurais, comunitários e de cuidados; liberdade de associação com negociação coletiva; direitos coletivos, livres de violência antissindical; e uma política de emprego para mulheres e jovens”.
O fato é que a reforma trabalhista restaurou direitos que deixaram fascistas e neoliberais de cabelo em pé, afrontando as candidaturas do bilionário Abelardo de la Espriella e de Paloma Valencia, fiel seguidora do ex-presidente e genocida Álvaro Uribe (2002-2010).
O EMPENHO VEXAMINOSO DA MÍDIA HEGEMÔNICA
Por conta disso, reproduzindo os interesses do capital financeiro, das transnacionais e latifundiários, a mídia hegemônica tem se empenhado de forma doentia e vexaminosa nesta reta final da campanha em afrontar o país com as mais bizarras mentiras sobre Iván Cepeda e Ainda Quilcué, reconhecidos lutadores pelos direitos humanos, que tiveram familiares assassinados por paramilitares e pelo Exército, mas foram – e continuam sendo – pilares inquebrantáveis do Acordo de Paz.
O clima de radicalização extrema leva algumas pessoas a perderem completamente qualquer censo de ridículo, defendendo abertamente o assassinato de oponentes, como escancarou o motorista de táxi que me conduziu ao evento. Ao defender a política de paz do atual governo, fui confrontado por um tom raivoso dizendo que “a paz se constrói sobre ossos, sobre cadáveres”. Assumiu, histérico, que diante de uma nova vitória das forças progressistas, “algo precisaria ser feito”.
Negou a informação – mais do que comprovada – pela Jurisdição Especial para a Paz da Colômbia sobre as 7.827 vítimas de execuções extrajudiciais realizadas pelos soldados – conhecidos como falsos-positivos, muitos deles desempregados recrutados nas periferias para trabalhar em alguma colheita no campo e que retornavam crivados de balas por serem “guerrilheiros”. O alto mando militar, como foi admitido, bonificava as tropas pelo banho de sangue perpetrado, sob aplauso do governo dos Estados Unidos.
Felizmente, como nos ensinou o grande García Márquez, “diante da opressão, da pilhagem e do abandono, nossa resposta é a vida”. “Nem inundações, nem pestes, nem fomes, nem cataclismos, nem mesmo guerras eternas ao longo dos tempos conseguiram diminuir a tenaz vantagem da vida sobre a morte”.
LEONARDO WEXELL SEVERO, de BOGOTÁ-COLÔMBIA
Esta cobertura da Agência Comunica Sul de Comunicação Colaborativa só foi possível graças ao apoio do Sindicato dos Bancários de São Paulo; Sindicato dos Escritores do Estado de São Paulo; jornal Hora do Povo; Vermelho; Diálogos do Sul Global; Correio da Cidadania; Barão de Itararé; vereador Werner Tempel (PCdoB) de Santa Maria-RS; Professor Azuaite, de São Carlos-SP; Instituto Angelim

