
“Após ser derrotada duas vezes no Congresso, a reforma trabalhista que nos devolveu direitos retirados pelo neoliberalismo foi aprovada pelos parlamentares devido à intensa mobilização popular”, afirmou Fábio Arias, presidente da Central Unitária de Trabalhadores da Colômbia
Em entrevista exclusiva, o líder da Central Unitária da Colômbia (CUT), Fábio Arias, destacou o papel do presidente Gustavo Petro em apostar na mobilização popular para superar os obstáculos impostos pela oposição neoliberal no Congresso e garantir a reforma trabalhista. O dirigente destacou a relevância do aumento de 23,7% do salário mínimo neste ano (contra uma inflação de 5,2%), e de como isso “impactou diretamente na melhoria de vida de cinco milhões de pessoas”. Fabio Arias denunciou que durante os anos de “capitulação da Colômbia ao neoliberalismo, à ortodoxia do ‘livre mercado’ e aos Tratados de Livre Comércio (TLCs), o país se desindustrializou e desnacionalizou, ampliando o desemprego”, sendo necessário agora “fortalecer a soberania e a integração regional” para enfrentar “a política imperialista dos Estados Unidos, seu fascismo transbordado e o militarismo”. De acordo com o líder da CUT-Colômbia, para derrotar “a aventura norte-americana e o tacão de Trump”, é essencial “valorizar os esforços dos presidentes Cláudia Sheinbaum, Lula e Petro”, sensibilizando o país para eleger Iván Cepeda e Aida Quilcué no próximo domingo (31).
LEONARDO WEXELL SEVERO, DE BOGOTÁ/COLÔMBIA
Na avaliação da maior central sindical do país, qual foi a principal conquista do governo de Gustavo Petro?
Os principais avanços se deram com a reforma trabalhista, que recuperou direitos perdidos pelos trabalhadores no período neoliberal, especialmente durante o governo de Álvaro Uribe Vélez (2002-2010), que eliminou o adicional noturno e reduziu o pagamento dos domingos e feriados, o que provocou um arrocho muito significativo para os trabalhadores. Adicionalmente, retiraram o caráter trabalhista do contrato de aprendizagem.
Isso se recuperou com o governo de Gustavo Petro, no meio de uma batalha política de muita mobilização social, felizmente, porque a reforma foi derrotada duas vezes e tivemos a necessidade de ressuscitá-la. E voltou à pauta dos congressistas graças à mobilização social e à proposta do governo de uma consulta popular. Petro disse que, se os parlamentares não aprovassem a reforma, ela viria por meio de uma Constituinte, por meio de uma consulta popular. Este é um dispositivo que existe na nossa Constituição e possibilitaria que o povo ratificasse em 12 perguntas o que havia sido negado pelo Congresso da República.
Entre as medidas adotadas pelo governo, qual a de maior impacto na vida da população?
Sem sombra a dúvida a de maior impacto é a do aumento do salário mínimo, algo que o governo de Gustavo Petro chamou de salário mínimo vital. Esta figura nasceu em um informe que apresentou a Organização Internacional do Trabalho (OIT) à Comissão Nacional de Concertação, que discute o salário mínimo entre o governo, empresários e trabalhadores. Ali se apontou que havia no país uma defasagem de 50% para a constituição de um salário vital, ou seja, a fim de suprir a mínima satisfação das necessidades básicas em matéria de moradia, saúde, educação, transporte e alimentação para que uma família possa sobreviver. A OIT demonstrou que havia uma defasagem de 50% e Gustavo Petro disse que necessitava fazer um aumento significativo, e o fez de 23,7% (contra uma inflação de 5,2%).
Desta forma, o governo começou a fechar essa brecha que a OIT assinalou. Isso representou um golpe político e econômico muito a favor da classe trabalhadora e um aumento da credibilidade e da popularidade do governo. Esse decreto beneficia cerca de cinco milhões de colombianos que por diversas circunstâncias ganham salário mínimo, cerca de três milhões de trabalhadores formais, um milhão e 300 mil aposentados, policiais, soldados, e médicos residentes. Por isso digo que essa é a medida de maior impacto, com cobertura bastante significativa.
O aumento do ganho real dos salários ajudou a roda da economia girar, contrariando o discurso neoliberal.
É isso que o Departamento Administrativo Nacional de Estatística (Dane) vem registrando: o crescimento do consumo das moradias, resultado não somente deste último aumento salarial, como dos anteriores garantidos pelo governo. As pessoas estão consumindo mais e isso efetivamente tem dinamizado a economia.
Ao contrário que do disseram os empresários e toda a ortodoxia neoliberal, inclusive os candidatos do “Centro Democrático” – que indicou Paloma Valencia à cadeira do Palácio de Nariño, fiel seguidora do genocida e ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010). Embora tenham alardeado que dessa maneira os empregos iriam ser destruídos, o certo e concreto é que o desemprego continua diminuindo. Toda essa ortodoxia neoliberal ficou refutada com fatos, pois como dizemos “dato data relato”. Com a valorização do mínimo, o desemprego diminuiu e colocou um ponto final na ladainha.
Qual a importância da industrialização em um segundo governo progressista?
Com a chegada do neoliberalismo na Colômbia, com a ortodoxia do “livre mercado” e os Tratados de Livre Comércio (TLCs), o país se desindustrializou e perdemos setores muito importante para a geração de emprego e renda, como o ferroviário e têxtil, que foram eliminados. Várias outras indústrias não acabaram, mas foram parar nas mãos do capital estrangeiro.
Desnacionalização e desindustrialização foi o que sucedeu. Setores muito significativos como o de cervejas e bebidas gasosas foram entregues ao capital internacional. O setor do transporte foi doado aos grandes monopólios do país. Aqui havia uma indústria do transporte marítimo, controlado pela indústria cafeteira, que também desapareceu. A Colômbia transportava diretamente o café e isso foi entregue estritamente ao capital transnacional.
Onde houve maior efeito foi que perdemos toda a produção de alimentos, e por tal motivo não há nenhum nível de transformação, e as possibilidades que tínhamos de industrializar esses produtos também se perderam. Digamos que aí está a desnacionalização mais significativa do nosso país, onde se perderam, obviamente, milhões de empregos e outros foram parar na informalidade.
Havia também uma indústria de montagem de veículos, que ao longo do tempo foi sendo desmontada.
Constatei que na Colômbia, assim como no Brasil, o sistema financeiro busca criar instrumentos para governar à parte da democracia, impondo suas taxas de juros elevadas a partir da imposição de um Banco Central “independente”. Como encaras esse problema?
Bom, esse é um dos componentes próprios da ortodoxia neoliberal. Todo o neoliberalismo está feito para salvaguardar os interesses e os privilégios do grande capital financeiro nacional e internacional. Com a Constituição de 1991, quando chegou o neoliberalismo na Colômbia, o Banco Central se impôs de forma autônoma e independente, abandonando uma política de fomentos para estimular o setor agropecuário e o setor industrial. Isso tudo se perdeu.
E como se trata de manter privilégios e interesses, mantiveram altíssimas taxas de juros, prejudicando obviamente a política de desenvolvimento de Petro, seu compromisso com a industrialização e investimento no setor agropecuário. Tudo isso ficou seriamente obstaculizado por essa política do BC.
O próximo governo também terá que aprofundar a política de fomento ao setor agropecuário e de insistir na reforma agrária, que se torna um fator da industrialização, além de recuperar uma série de bens que podem ser produzidos diretamente no país, ao invés de importá-los sem maior necessidade.
Como vês o papel da mobilização em defesa da soberania nacional e da integração latino-americana neste momento de ataque do imperialismo?
Bem, infelizmente a integração latino-americana segue sendo mais um sonho do que uma realidade. Conseguimos avançar muito pouco. Petro tentou utilizar a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) para que se pudesse avançar mais do que em declarações de caráter político, de efetiva integração. A Celac não pôde funcionar dessa maneira porque os governos mais reacionários da extrema-direita, como o de Milei, na Argentina; Bukele, em El Salvador e, obviamente, agora os de Noboa, no Equador, e Rodrigo Paz, na Bolívia, obstaculizam qualquer possibilidade. A Celac parecia ser uma institucionalidade latino-americana que poderia ter fomentado a integração em termos econômicos. Por conta dessa reação da direita não pudemos avançar nem política nem economicamente na integração.
Foram feitos esforços de alguns governos, mas sem que tenham uma consolidação significativa. Então, essa será uma tarefa que ainda segue em perspectiva e. eremos de aprofundar. Frente a toda a política imperialista dos Estados Unidos, ao fascismo transbordado e ao militarismo, defendamos uma integração ainda mais forte em termos políticos e também econômicos. É uma tarefa difícil, mas necessária.
Os esforços dos presidentes Cláudia Sheinbaum, de Lula e de Petro ainda não conseguiram consolidar um movimento determinante nesse caminho, pois os Estados Unidos conseguiram armar um projeto chamado Escudo das Américas. Todos os governos da América Latina e do Caribe, com poucas exceções, estes três que acabo de mencionar, mais o de Venezuela e o de Cuba, estão debaixo do tacão dos Estados Unidos e de Trump, e constituíram esse Escudo para justificar ou respaldar toda aventura militar norte-americana na região.
No meio desse cenário geopolítico temos a eleição colombiana, com as forças progressistas enfrentando as candidaturas fascistas e neoliberais no próximo domingo.
Exato. Estamos trabalhando e nos empenhando para ganhar no primeiro turno com Iván Cepeda e Aida Quilcué, o que representará um triunfo do povo e da classe trabalhadora colombiana, mas sobretudo da democracia e da soberania.
Derivado da violência liberal conservadora, o presidente Petro não pôde participar dos comícios de campanha, pois está proibido que os governos a nível nacional, estadual ou municipal possam se envolver do processo eleitoral. Isso é mais uma hipocrisia do que uma realidade, um absurdo. O que Petro pode fazer e faz é defender as realizações do seu mandato, demonstrando que a Colômbia necessita seguir avançando neste tipo de governo.
Ao mesmo tempo em que é impedido de comparecer em atos de apoio a Cepeda, o Heraldo, principal meio de comunicação privado de Barranquilla, dedica um editorial e vários títulos a defender o bilionário fascista Abelardo de la Espriella.
Todos os meios de comunicação massivos na Colômbia, todos, seja emissoras de rádio, canais de televisão ou escritos, são propriedade do grande capital e, obviamente, têm seus próprios candidatos – de direita – e os utilizam para promovê-los. Já o Estado não pode fazer isso.
Veja como é a vida. Enquanto o domínio do capital se mostra de forma escancarada sobre os meios de comunicação – controlados por banqueiros e latifundiários -, negam essa possibilidade ao candidato do governo para divulgar suas realizações públicas.
Comprometidos com um segundo governo progressista, estamos empenhados com a vitória.
Esta cobertura da Agência Comunica Sul de Comunicação Colaborativa só foi possível graças ao apoio do Sindicato dos Bancários de São Paulo; Sindicato dos Escritores do Estado de São Paulo; jornal Hora do Povo; Vermelho; Diálogos do Sul Global; Correio da Cidadania; Barão de Itararé; vereador Werner Tempel (PCdoB) de Santa Maria-RS; Professor Azuaite, de São Carlos-SP; Instituto Angelim

