
Condenando a interferência do Trump no processo eleitoral “com recursos , fraudes e chantagens” para eleger o fascista De la Espriella, o destacado filósofo Marcelo Caruso Azcárate, convoca militância a se manter mobilizada com Cepeda para vencer a submissão que o desgoverno tentará impor ao país
Renomado intelectual, escritor e professor colombiano-argentino, Marcelo Caruso Azcárate lidera a Coordenadora Socialista da Colômbia, movimento que integra o Pacto Histórico, principal força de oposição no Congresso “à submissão do país ao fascismo e ao neoliberalismo”. O projeto neocolonial, proposto pelo advogado de narcotraficantes, paramilitares, estupradores e especuladores Abelardo de la Espriella, precisa ser combatido com unidade e mobilização, enfatiza. Nesta entrevista exclusiva, Marcelo denuncia “a intromissão de Trump no processo eleitoral colombiano” e reitera que a “resistência estancará os golpes midiáticos” que visam “impor os interesses do imperialismo estadunidense sobre a soberania nacional e os interesses dos povos”.
LEONARDO WEXELL SEVERO/ DIRETO DE BOGOTÁ,COLÔMBIA
CONTRIBUIÇÃO DE CAIO TEIXEIRA
Qual o significado e a dimensão da interferência de Trump nas eleições colombianas?
Bem, antes de tudo, vemos que se trata de um momento não apenas colombiano, mas latino-americano e global, de interferência de um tipo de imperialismo com vertentes novas e complexas. Já não é mais o neoliberalismo clássico que trazia a abertura de mercados. Essa é uma disputa pela hegemonia mundial, como tínhamos no passado, e que atua por cima do que foram os acordos do pós-guerra, como a Organização das Nações Unidas e o direito internacional.
Essa corrente que se instalou nos Estados Unidos e se transferiu para a Europa e logo para governos da América Latina é uma forma em que começa não apenas o declínio do capitalismo, mas o fim de uma etapa. É um processo em que aquela história que nos contavam sobre democracia, direitos humanos e espaços multilaterais já não funcionam, não lhes interessam mais como espaço de alienação e controle.
Assim partiram diretamente para outras formas, porque nasceram resistências, formas que eles não esperavam de governos de esquerda e progressistas. Fortaleceu-se a China e toda a área do que chamam de Sul Global, os BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Então dispuseram e decidiram que devem se meter em tudo, por cima de qualquer acordo prévio que tenha sido alcançado, entre aspas, pela sociedade humana. Onde aquela história que nos contavam sobre a república democrática já não cabe, a cidadania já não vale mais como parte de uma etapa de conquistas que obtivemos.
Essa ingerência externa faz parte de um projeto antinacional mais amplo, de controle e subordinação de países e povos?
É uma interferência que não é diferente, não é nova, assume as peculiaridades de cada processo nacional. Como na Colômbia não podiam intervir como fizeram em Honduras ou na Venezuela, que foi de uma forma muito mais violenta, agiram conforme os processos nacionais de resistência e luta dos governos, de seus sucessos ou fracassos. Aqui chegaram via eleitoral.
Na Argentina, apoiaram-se em governos muito fracos e nos fracassos, de certa forma, dos governos progressistas. Aqui o que estão fazendo é uma luta de frente, é uma luta de classes bem clássica, imperialismo contra todos os povos dominados. E o que encontraram foi que lograram um triunfo, entre aspas, eleitoral, baseado nos temores, também no dinheiro, nas corrupções e nos medos das classes dirigentes de perder parte de seus privilégios econômicos e financeiros. Conseguiram incutir medo nas camadas médias e até populares diante da forte ameaça de enfrentar Donald Trump. Pensam: olhem o que fazem em Gaza, o que fizeram na Venezuela e o que podem fazer aqui.
A alienação imprimia uma guerra de desinformação que reforçava o medo e, com ele, a submissão…
A grande guerra cognitiva é uma forma de intervir, como fizeram, gerar e instalar na mente das pessoas uma lógica totalmente alienante e submissa, que as coloca a reproduzir esse pensamento. Por que é melhor fazer isso? Dessa forma se perde a capacidade de pensarmos coletivamente, de raciocinar. E esse era o desafio que tínhamos. Sabíamos que isso viria e com tudo. Fizemos o que era possível.
A grande guerra cognitiva é uma forma de intervir, como fizeram, gerar e instalar na mente das pessoas uma lógica totalmente alienante e submissa”
As comunidades fizeram muito mais, os jovens, em particular, nestes últimos 15, 20 dias, se mobilizaram como nunca. De certa forma, contrabalançaram isso, em parte porque foram três milhões de votos que obtivemos a mais com Iván Cepeda e Aida Quilcué no segundo turno.
Acredito que muitos setores da própria burguesia tradicional votaram em branco (426.848, o que corresponde a 1,63% do total). Esse não é apenas um voto de centro, é um de setores que ainda creem na república democrática burguesa e que veem que este homem (Abelardo de la Espriella) traz com ele, carrega, o fascismo. Isso cria contradições no próprio bloco, na classe dirigente, o que Gramsci chamava de bloco histórico. E tudo isso está em disputa pela hegemonia mundial.
E aí caem esses governos progressistas, não porque sejamos o centro do mundo. Viram que aqui se podia interromper uma onda de transformações por meio de golpes midiáticos e violentos, com guerras cognitivas. E eles fizeram fraude tanto no primeiro quanto no segundo turnos e compraram votos, ameaçaram, chantagearam. Isso não aparece na contagem dos votos, mas ficou muito evidenciado.
Um jogo de cartas marcadas made in USA…
O Pacto Histórico sabia que isso vinha dos Estados Unidos, que não respeitam normas, que a própria atitude dos seus enviados foi algo vergonhoso para eles mesmos. Esperamos que isso gere reações internas nos EUA, porque os trumpistas fizeram isso em vários estados dentro do seu país. Aqui estão agindo igual.
É um atropelo não só às regras democráticas da América Latina; é um desrespeito para os próprios EUA, pois os trumpistas começam a passar por cima das autonomias dos estados e dos direitos dos seus cidadãos.
O mundo está em convulsão, como aconteceu quando surgiu naquele primeiro fascismo e nazismo, mas que assume formas distintas. Não é mais o fascismo de Hitler ou de Mussolini, assume peculiaridades em cada país, com centros de inteligência que propõem estratégias com elementos comuns, mas com táticas específicas.
E a resistência a esse nazifascismo do século 21?
Há um grande movimento de rejeição e resistência, indignação, mas não houve uma consciência anti-imperialista suficientemente elevada para dizer: “se Trump apoia De la Espriella, eu não voto”, como pode acontecer no México, onde há uma rejeição histórica ao imperialismo, ou no Irã, com sua cultura tradicional, ou em Cuba, com sua formação ideológica. Essa é a tarefa que temos pela frente. Porque mesmo que tivéssemos ganhado, teríamos um governo completamente cercado.
O governo Petro terminou sem recursos, com dificuldades para garantir a manutenção da saúde, porque não aprovaram nossos projetos, nossa reforma, boicotaram via Congresso. Esse governo da ultradireita que chega vai encontrar todo o cenário desfavorável que provocou ao nosso, a um projeto de esquerda e progressista. Veremos como resolverão isso. Se forem iniciar cortando direitos, acontecerá com eles o mesmo que ocorreu com Macri na Argentina, serão suicidas.
Se forem iniciar cortando direitos, vai acontecer com eles o que aconteceu com Macri na Argentina, serão suicidas”
Porque as pessoas estão preparadas para lutar. Dividiram a Colômbia entre um candidato acusado de comunista, cujo pai foi um líder comunista, e que votou metade deste país, que tem sido conservador por tradição, em Iván Cepeda. É um enorme avanço. Nós sempre dizíamos: podem nos ganhar as eleições, roubar as eleições, mas não será uma derrota política. E foi isso. Política no sentido social-político. Agora temos desafios enormes de como vamos enfrentar isso.
Qual o tamanho da batalha que se avizinha?
Temos pela frente um neofascismo em meio a um país com violência e guerras, micro guerras em tudo. E vão aplicar toda essa violência com a história de combater o narcotráfico. Tentarão liquidar nossos líderes. E isso vai levar a protestos muito mais maduros, levantes sociais como o anterior.
Convulsões como começam a acontecer no Chile e na Bolívia, sem direção. A diferença é que aqui a esquerda não vai se desunir. Aprendemos a nos unificar. Nós nos unimos pela primeira vez, sendo pequenos partidos, quando Álvaro Uribe ganhou as eleições presidenciais em 2002. E o primeiro modelo neofascista sólido na América Latina foi o de Uribe.
Embora sumamente autoritários, agora estão tentando ser mais moderados porque a classe financeira e econômica do país não quer mais guerras, porque isso significa não haver investimentos, impossibilita que os negócios funcionem como querem. Eles já têm o controle da economia deste país, têm sete bases norte-americanas, têm todas as transnacionais instaladas.
Continuam havendo sete bases estadunidenses dentro da Colômbia?
Aí permanecem os norte-americanos em sete bases, dentro das bases militares colombianas. Não são totalmente autônomas, mas funcionam dentro das bases do exército, da marinha e da aviação. Isso existe. Ou seja, aqui não precisam vir para nos controlar.
Controlam a economia, controlam as forças armadas até um nível que não sabemos. E têm todo o mercado de exportação.
Nosso presidente que enfrentou todo o modelo internacional, enfrentou Israel, além de acertos ou erros, foi um referente mundial. E eles precisavam esmagar isso.
O que vem pela frente com a eleição de De la Espriella?
É uma versão muito mais fascista do que Iván Duque (2018-2022). Mas o ministro da Fazenda que ele tem, que foi o ministro da Fazenda de Duque, é o seu vice-presidente José Manuel Restrepo Abondano. Ou seja, segue um modelo neoliberal privatizador.
Vamos ver até onde decidem fazer guerras, porque o próprio Exército passou quatro anos bastante tranquilo com Petro e agora pode vir a ser jogado de volta ao campo de batalha.
Esta cobertura da Agência ComunicaSul de Comunicação Colaborativa só foi possível graças ao apoio do Sindicato dos Bancários de São Paulo; Sindicato dos Escritores do Estado de São Paulo; jornal Hora do Povo; Vermelho; Diálogos do Sul Global; Correio da Cidadania; Barão de Itararé; vereador Werner Tempel (PCdoB) de Santa Maria-RS; Professor Azuaite, de São Carlos-SP; Instituto Angelim, da Internacional dos Serviços Públicos (ISP) e da Central Unitária de Trabalhadores da Colômbia, além de vários contribuintes anônimos.
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