Para Liliana Vivas Cortes, dirigente do Sindicato Único dos Trabalhadores da Educação do Vale do Cauca, a declaração do candidato da ultradireita de “expulsar a organização de dentro das salas de aula” expõe sua aversão aos que defendem a educação pública
A dirigente do Sindicato Único dos Trabalhadores da Educação do Vale do Cauca (Sutev), Liliana Vivas Cortes, afirma que “a trajetória e a proximidade de Abelardo de la Espriella à ultradireita, seus vínculos com o narcotráfico e o paramilitarismo” devem servir para os colombianos irem às urnas derrotar o retrocesso neoliberal e tudo o que implica na perda de direitos. A declaração do candidato fascista de que uma vez eleito iria “expulsar a Federação Colombiana de Educadores (Fecode) de dentro das salas de aula”, advertiu Liliana, expôs sua “aversão aos que defendem a educação pública e demonstra a quem serve”. Nesta entrevista exclusiva em Cali, capital do Vale do Cauca, conhecida como a “Sucursal do Céu”, a dirigente falou sobre a mobilização para eleger Iván Cepeda e Aida Quilcué no próximo dia 21.
LEONARDO WEXELL SEVERO – DIRETO DE CALI/COLÔMBIA
COLABORAÇÃO DE CAIO TEIXEIRA
Abelardo de la Espriella disse que, uma vez eleito presidente, “expulsaria a Federação Colombiana de Educadores (Fecode) das salas de aula”. A quem serve esse tipo de declaração?
Para nós, essa afirmação não é estranha, considerando a trajetória e a proximidade do senhor Abelardo de la Espriella à ultradireita, seus vínculos com o narcotráfico e o paramilitarismo. O que expressou publicamente é totalmente coerente com sua visão de mundo, da política e de como gostaria de governar o Estado. Essa declaração encarna a posição dele e a quem atende.
É sabido que ele nunca garantiu qualquer direito, ao longo de toda sua vida, que nunca defendeu a educação ou questões sociais. Então torna-se realmente coerente com seu discurso, com o tipo de pessoa que é, com a sua ideologia e a de seus chegados.
O que considero lamentável é que muitos colombianos que conhecem essa trajetória, que conhecem essa tragédia que vivemos nesses anos de guerra durante os 200 anos de governos de direita, neoliberais, se identifiquem com tal declaração e tão descabidas ideias.
A Fecode jamais poderia estar fora da sala de aula porque é a nossa essência estar com as comunidades e com nossos estudantes na defesa de uma educação pública de qualidade como direito”
Os professores que somos conscientes da nossa realidade, que estamos próximos da população, nos somamos à Federação Colombiana de Educadores, porque falar desta Federação é falar dos professores, da educação e dos direitos. A Fecode jamais poderia estar fora da sala de aula porque é a nossa essência estar com as comunidades e com nossos estudantes na defesa de uma educação pública como direito, uma educação pública com qualidade, uma educação pública com segurança, identidade e bem-estar.
Então, aqui, o que temos que fazer é firmar posição: se estamos com o povo, mobilizados e articulados com nossas comunidades, ou se iremos retroceder com a direita, com Abelardo.
Vejo pela sede do Sindicato vários cartazes em apoio à candidatura do senador Iván Cepeda e da líder indígena Ainda Quilcué, como um “segundo governo progressista”. Qual a sua opinião?
O presidente Gustavo Petro recuperou inúmeros direitos que nos foram cortados durante o governo de Álvaro Uribe (2002-2010) como o adicional noturno, que agora começa às 19 horas em vez das 21 horas, o adicional aos domingos e feriados, que aumentou para 100%, e das horas extras, entre outros avanços.
A implementação do salário mínimo vital (que este ano teve um reajuste de 23,7% contra uma inflação de 5,2%) foi outra conquista, algo que não se pôde avançar muito devido à oposição de direita que tivemos de enfrentar desde o Legislativo, assim como impuseram obstáculos em relação à reforma das aposentadorias.
Apesar disso, houve avanços com o direito ao protesto e à greve, as garantias para que se possa reclamar direitos dos trabalhadores, pois havia inúmeros problemas nessa situação dos assassinatos e da perseguição de lideranças. Acreditamos que conseguimos progredir e daí a necessidade, desde as organizações sindicais, dos professores e trabalhadores, garantirmos a continuidade desse processo, alcançando os frutos que se plantaram.
Na recente disputa democrática para as eleições do Congresso, melhoramos a correlação de forças (o Pacto Histórico aumentou de 20 para 25 senadores e de 29 para 42 na Câmara de Representantes). Então, desta vez, desde o Legislativo, poderemos ter mais incidência no cotidiano, nos destacar melhor.
Portanto, essa é uma tarefa indispensável para nossas organizações: eleger Ivan Cepeda para dar continuidade a esse projeto progressista na presidência. O contrário seguramente representaria um enorme retrocesso para os trabalhadores e um descalabro para a Colômbia.
O presidente Petro fez recentemente um alerta que setores empresariais estão tentando influenciar o processo com subornos, chantagens e ameaças contra trabalhadores, e que é preciso denunciar e punir esse crime eleitoral? A isso se soma à violência antissindical, particularmente em cidades como Cali.
Com Iván Cepeda vencemos Abelardo de la Espriella tanto em Cali (52,51% contra 35,2%) quanto no Vale do Cauca (53,2% contra 33,8%). Sabemos que a votação de Abelardo vem direcionada pelo setor de engenhos (voltado à exportação de alimentos), que no Vale do Cauca tem muita incidência, com apoio da Federação Nacional de Comerciantes Empresários (Fenalco).
Estão coagindo trabalhadores para que votem no candidato da ultradireita sob o argumento de que a continuidade da atual política de garantia de direitos vai gerar desemprego e fechamento de empresas”
É sabido que estão coagindo trabalhadores para que votem no candidato da ultradireita sob o argumento de que a continuidade da atual política de garantia de direitos vai gerar desemprego e fechamento de empresas. Estão trabalhando com o medo, chantageando os trabalhadores a apoiarem os seus próprios carrascos, para que abram mão das conquistas obtidas durante o governo Petro, que tanto os favoreceu.
A perseguição é total, nos apontando como guerrilheiros. Tentam fazer esquecer que o gigantesco “Estallido social” (explosão social) ocorrido nas ruas em 2021 veio para favorecer o povo. Embora tenha sido traumática, foi aquela pressão feita pelos jovens que tornou possível a mudança, abrindo caminho para que tivéssemos um governo alternativo na Colômbia.
Contra os interesses populares a mídia hegemônica trabalha de todas as maneiras, com todos medos e temores. Esses medos difundem repetidamente nos meios de comunicação que monopolizam para fazer a mentira chegar como “informação” à população. A ultradireita se apoia neles para tentar voltar a controlar o Estado.
Nesta batalha entre a dependência e a submissão, entre a verdade e a mentira, a mídia colombiana cumpre então um papel bem definido?
É evidente. Não há nenhuma dúvida. Estamos falando de meios de comunicação de massa que têm poder, de redes de rádio e televisão como Caracol, de RCN, do jornal Espectador, da revista Semana, El País, que em Cali e no Vale do Cauca têm força, estão todos alinhados em favor da candidatura da direita.
Contamos com os meios alternativos para nos contrapor, mas a superioridade que dispõem é grande, é uma corrida de 200 anos com o adversário tendo largado na frente, cheio de recursos e impondo obstáculos e dificuldades. Além da vantagem do capital, eles contam com o fato de terem estado no poder e da burocracia.
Então, realmente eu penso que devemos valorizar cada um dos avanços que obtivemos, porque foram em condições bastante difíceis.
Temos que estar motivados e ir para a batalha do segundo turno a fim de desmascarar suas mentiras: porque o seu candidato um dia diz que é ateu, no outro que acredita em Deus, que é católico ou evangélico. Em uma oportunidade agride publicamente uma jornalista com comentários sexistas, depois defende a vida, quando há evidências de que maltrata animais indefesos. Fala abertamente que devemos estripar os nossos inimigos, e se declara abertamente homofóbico, e os abusos não param por aí.
Acredito que os colombianos precisamos ser coerentes e fazer com que nos respeitem enquanto seres humanos. Não podemos permitir que chegue à presidência uma pessoa desse tipo.
Apesar de todas as dificuldades, estamos convocando à consciência para eleger Iván Cepeda e Aida Quilcué no próximo dia 21, um homem e uma mulher responsáveis, à altura dos desafios que a Colômbia exige.
Esta cobertura da Agência ComunicaSul de Comunicação Colaborativa só foi possível graças ao apoio do Sindicato dos Bancários de São Paulo; Sindicato dos Escritores do Estado de São Paulo; jornal Hora do Povo; Vermelho; Diálogos do Sul Global; Correio da Cidadania; Barão de Itararé; vereador Werner Tempel (PCdoB) de Santa Maria-RS; Professor Azuaite, de São Carlos-SP; Instituto Angelim, da Internacional dos Serviços Públicos (ISP) e da Central Unitária de Trabalhadores da Colômbia, além de vários contribuintes anônimos.
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