Janones e Lula: unidade e integração pelo Brasil (Reprodução)

Empatados na reta final, Lula e Flávio Bolsonaro apresentam concepções distintas sobre o papel do Estado, a segurança, o trabalho, a economia e a soberania nacional

PAULO CANNABRAVA FILHO/DIÁLOGOS DO SUL GLOBAL
Faltam dois dias. No domingo, o Brasil decidirá quem ocupará a Presidência da República pelos próximos quatro anos. A última pesquisa Datafolha registra um empate de 50% a 50% dos votos válidos entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Mas o número isolado não conta toda a história. Lula chega ao empate numa linha ascendente, enquanto Flávio apresenta trajetória descendente: no primeiro Datafolha do segundo turno, eram 52% para Flávio e 48% para Lula; depois, 51% a 49%; agora, 50% a 50%. É uma movimentação dentro das margens de erro, e pesquisa não é previsão de resultado, mas a sequência dos levantamentos mostra o estreitamento da diferença e amplia a possibilidade de vitória de Lula no domingo.

É hora, portanto, de falar menos de pesquisas e mais de projetos. Como observa o Congresso em Foco, no domingo o eleitor não escolherá apenas um presidente. Escolherá também os rumos do país. Segurança, economia, trabalho, saúde, educação e soberania estão em jogo. Depois de uma campanha dominada por acusações, disputas judiciais e batalhas nas redes sociais, é preciso perguntar: afinal, o que cada candidato pretende fazer com o Brasil?

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Arte de Diálogos do Sul Global

Na segurança pública aparece uma das diferenças importantes. Lula propõe maior coordenação nacional da política de segurança, integração entre União, estados e municípios, inteligência, combate ao poder financeiro das organizações criminosas e políticas de prevenção. Flávio Bolsonaro aposta mais fortemente no endurecimento penal, incluindo a redução da maioridade penal e a responsabilização de adolescentes a partir dos 14 anos em determinados crimes graves.

Para mim, tratar um adolescente de 14 anos como adulto é um absurdo. Aos 14 anos, estamos diante de um ser humano ainda em formação. Evidentemente, crimes graves exigem responsabilização. Mas precisamos perguntar se enfrentaremos a violência simplesmente colocando cada vez mais jovens atrás das grades ou se atacaremos também suas raízes: desigualdade, abandono escolar, falta de oportunidades e recrutamento da juventude pelo crime organizado.

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Na economia está talvez a divergência mais profunda. Flávio apresenta propostas de redução da estrutura do Estado, corte de ministérios e despesas, redução de impostos e retomada das privatizações. Lula defende maior presença do Estado como indutor do desenvolvimento, investimentos, política industrial, valorização do trabalho e continuidade das políticas sociais. São concepções diferentes sobre qual deve ser o papel do poder público na organização da economia.

E aqui cabe uma pergunta que considero fundamental: quem vai pagar a conta dos próximos quatro anos? Quando alguém promete cortar gastos, precisa dizer quais gastos serão cortados. Quando promete diminuir o Estado, precisa dizer qual Estado será diminuído. Será o Estado que mantém o Sistema Único de Saúde (SUS)? A escola pública? A universidade? A pesquisa científica? A infraestrutura? A política industrial? É fácil transformar “corte de gastos” em palavra de ordem. Outra coisa é explicar ao trabalhador onde passará a tesoura.

No mundo do trabalho, essa discussão se torna ainda mais concreta. A jornada, os direitos trabalhistas, a Previdência e a proteção social não são abstrações econômicas. Determinam como milhões de brasileiros vivem. A discussão sobre a semana de 40 horas e o fim da escala 6×1 é parte dessa escolha. Qualquer proposta de rever conquistas trabalhistas precisa ser apresentada claramente ao eleitor antes da votação, para que ninguém descubra depois da eleição aquilo que poderia ter sabido antes.

Há ainda uma questão que atravessa todas as demais: a soberania nacional. Que posição o Brasil ocupará diante dos Estados Unidos, da China, do grupo dos BRICS e do restante do Sul Global? Teremos uma política externa orientada pela autonomia brasileira ou uma política de alinhamento preferencial às grandes potências? Não é uma questão distante da vida cotidiana. Política externa significa comércio, investimentos, tecnologia, indústria, emprego e capacidade de o país tomar suas próprias decisões.

Por isso, o último debate na Globo ganha importância especial. Em vez de mais uma sucessão de acusações, seria importante que os candidatos explicassem concretamente o que pretendem fazer a partir de 1º de janeiro. O eleitor tem o direito de saber o que acontecerá com seu salário, seu emprego, sua aposentadoria, o SUS, a escola pública, a segurança de sua família e a capacidade do Brasil de decidir seu próprio destino.

O Datafolha mostra uma eleição rigorosamente apertada: 50% a 50%. São números suficientes para mostrar que a eleição continua aberta e que cada voto terá enorme importância.

Mas a escolha de domingo não pode ser reduzida aos nomes de Lula e Flávio Bolsonaro impressos na urna. São dois projetos de país em confronto. É isso que precisa estar no centro da discussão nestas últimas horas: qual será o papel do Estado, quem financiará o desenvolvimento, quem arcará com os sacrifícios e que lugar o Brasil pretende ocupar no mundo.

No domingo, o eleitor dará a sua resposta votando em Lula, 13.

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