A política econômica não é neutra; ela distribui ônus e benefícios. Nesse sentido, a decisão do Banco Central da Colômbia favorece os bancos, os grandes investidores e aqueles com poder de mercado. Pela relevância do tema – e do artigo publicados no semanário Voz – a ComunicaSul reproduz abaixo na íntegra o artigo de Andrés Zambrano-Curcio, mestre em Economia pela Universidade do Norte em Barranquilla e doutorando na Universidade Tecnológica de Brandenburg, em Cottbus-Senftenberg, na Alemanha.
ANDRÉS ZAMBRANO-CURCIO
Em 31 de março, em votação dividida (4 a 3), o conselho de administração do Banco Central da Colômbia decidiu aumentar a taxa de juros em um ponto percentual. Isso elevou a taxa para 11,25%, um nível alto em comparação com a média das últimas décadas. Essa decisão dá continuidade a uma política monetária restritiva iniciada no começo do ano: o crédito fica mais caro, o consumo desacelera e a economia esfria.
Além da questão de se o aumento é apropriado ou não – algo que até mesmo dentro do próprio Banco levanta dúvidas -, há um ponto fundamental: as decisões relativas às taxas de juros não afetam a todos igualmente. Quando as taxas sobem, aqueles que dependem de crédito (famílias, pequenas empresas, agricultores) pagam mais, enquanto aqueles que emprestam dinheiro (bancos, grandes investidores) se beneficiam. Portanto, essa política tem claros efeitos redistributivos: tende a favorecer os setores com maior poder financeiro.
INDICADORES DE INFLAÇÃO
Para responder eficazmente, precisamos primeiro entender a origem da inflação atual. Os dados mostram que o aumento dos preços não é impulsionado principalmente pelos alimentos, mas sim pelos serviços. Isso é importante porque desafia a explicação mais comum da economia ortodoxa: a chamada “espiral salário-preço”.
Segundo essa ideia, se os salários aumentam, as pessoas consomem mais, o que pressiona os preços para cima. No entanto, se esse fosse o caso, os preços dos alimentos também deveriam subir acentuadamente, o que não acontece.
Uma explicação alternativa aponta para dois fatores mais concretos. O primeiro é institucional: na Colômbia, muitos preços de serviços (como alguns serviços públicos ou tarifas regulamentadas) estão legalmente atrelados ao salário mínimo. Quando o salário mínimo aumenta, esses preços sobem automaticamente, sem necessariamente refletir um aumento na demanda ou custos reais mais altos.
O segundo fator é o que a economista Isabella Weber chama de “inflação do vendedor”. A ideia é simples: em mercados com pouca concorrência – isto é, onde algumas grandes empresas dominam o setor – essas empresas têm mais poder para definir preços. Quando algo visível acontece, como um aumento no salário mínimo, isso serve como um sinal ou desculpa para subi-los.
Isso não ocorre porque os custos aumentaram proporcionalmente, mas porque eles sabem que os consumidores (ou seja, todos nós) esperam aumentos de preços. Assim, as empresas podem até aumentar suas margens de lucro aproveitando-se da situação. Em outras palavras, não apenas os custos aumentam, mas os lucros daqueles que detêm o poder de mercado também aumentam.
Se essa interpretação estiver correta, o aumento das taxas de juros não resolve o problema subjacente. O arrefecimento da economia não reduz necessariamente esse tipo de inflação, mas afeta o emprego e a renda dos setores mais vulneráveis.
POSSÍVEIS RESPOSTAS
Que pode fazer o governo neste contexto? Existem medidas de curto prazo ao seu alcance. Por exemplo, através da Superintendência da Indústria e Comércio, pode aumentar a fiscalização das empresas dominantes para prevenir abusos na fixação de preços.
Isso envolve exigir informações claras sobre custos, margens de lucro e justificativas para aumentos de preços, especialmente em setores concentrados. O objetivo é evitar que o aumento do salário mínimo seja usado como pretexto para aumentos desproporcionais de preços.
Outra medida é compensar o aumento do custo do crédito. Quando as taxas de juros sobem, o financiamento fica mais caro, especialmente para pequenos produtores e consumidores.
O governo pode intervir utilizando bancos públicos para oferecer crédito mais barato e acessível a setores estratégicos, como a agricultura e as pequenas empresas”
O governo pode intervir utilizando bancos públicos, como o Finagro e o Bancóldex, para oferecer crédito mais barato e acessível a setores estratégicos, como a agricultura e as pequenas empresas. Isso ajuda a sustentar a produção e o consumo sem depender inteiramente de bancos privados.
Há outros elementos da política econômica que estão caminhando na direção certa e que valem a pena explorar mais a fundo. Por exemplo, a decisão de não impor tarifas sobre produtos do Equador que são utilizados como insumos na produção nacional é, em termos gerais, acertada.
Reduzir ou eliminar esses custos de importação diminui os custos de produção locais e pode ajudar a conter os preços finais. No entanto, esse tipo de medida por si só não garante que o benefício chegará à população. Em mercados com alta concentração de negócios, as empresas podem absorver essas reduções de custos e convertê-las em margens de lucro maiores, sem repassá-las aos consumidores na forma de preços mais baixos.
OS LIMITES
Portanto, essa política deve ser acompanhada por mecanismos de monitoramento e controle de preços: monitoramento sistemático das margens, rastreabilidade de custos e, quando necessário, intervenção direta contra práticas abusivas.
O objetivo é garantir que os benefícios do comércio não permaneçam no topo da cadeia produtiva, mas se reflitam em preços mais acessíveis para as pessoas comuns.
Por fim, existem limitações políticas reais. Restrições legais, como a Lei de Garantias, e o fato de que, em ano eleitoral, o Congresso da República fica praticamente paralisado até a posse do novo legislador dificultam a aprovação de novas políticas de grande alcance. Mesmo assim, o Poder Executivo mantém instrumentos para mitigar os efeitos mais severos da política monetária.
Nesse cenário, não está em jogo apenas uma decisão técnica, mas também o tipo de economia que se pretende sustentar. Se não houver resposta do governo federal, o resultado tende a se repetir: os custos do ajuste recaem sobre a maioria, enquanto os benefícios se concentram nos setores com maior poder econômico. A política econômica não é neutra; ela distribui ônus e benefícios. Essa mesma questão será decidida nas eleições presidenciais de 31 de maio: se os ajustes serão pagos pelos suspeitos de sempre (o povo) ou por aqueles que são responsáveis por eles.
