
Bicampeão estadual de motociclismo, o defensor da reforma agrária foi acusado de “ajudar a guerrilha” pelos paramilitares das Autodefesas Unidas e abandonado com seis tiros para morrer. Perdeu a perna e luta, como milhares de vítimas, por reparação
LEONARDO WEXELL SEVERO – DIRETO DE BOGOTÁ/COLÔMBIA
Edgar Orlando Portala Posada chega com suas duas muletas no pequeno hotel em que estou hospedado no centro de Bogotá. Na capital colombiana, dona Diana ou algum dos seus funcionários sempre lhe empresta o telefone para que possa tentar falar com a Procuradoria ou com os diferentes tribunais que lhe deveriam atender..
A malta do ex-presidente Alvaro Uribe infelizmente não só governou o país entre 2002 e 2010, mas se mantém em decomposição na estrutura jurídica do Estado, tornando ainda mais absurdos – e abusivos – os seus resultados. Adia assim decisões óbvias para um “depois” que nunca chega.
Dom Edgar é uma das suas muitas vítimas. Um dos graves problemas que salta aos olhos é a resolução dos processos referentes às Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC). Essa organização paramilitar (miliciana) de extrema-direita teve papel chave no narcotráfico e em crimes de lesa-humanidade entre 1997 e 2006 para combater as guerrilhas revolucionárias que se levantaram contra a entrega do país aos Estados Unidos.
Conforme o Centro Nacional de Memória Histórica, esses grupos paramilitares fascistas foram responsáveis pelo assassinato de 94.754 pessoas. Os ex-combatentes das AUC admitiram terem matado 30 mil. Para não deixar dúvida, seus chefes permitiram a localização e exumação de cerca de nove mil “desaparecidos”, encontrados em valas comuns.
A denúncia vai além: indica a realização de incontáveis “chacinas”, de deslocamentos forçados” de milhões de camponeses, trabalhadores obrigados junto aos seus familiares a abandonarem suas terras às pressas, o que proporcionou a expansão de latifúndios nacionais e estrangeiros.

Diante disso, Dom Edgar vê na “eleição de Iván Cepeda, a rota para reforçar e retomar a Justiça na Colômbia, compromisso do presidente Gustavo Petro. Exatamente o que o milionário Abelardo de la Espriella quer evitar, devido à identidade com a ultradireita”.
Bicampeão estadual de motociclismo, “reconhecido pela Federação”, Dom Edgar acredita na necessidade de que o poder Judiciário “fique atento a pessoas que tanto sofreram e que continuam sem uma mínima atenção”. “Primeiro, sofri um atentado em 1997, por dizerem que eu ajudava a Coordenadora Nacional Guerrilheira, que era então quem unificava todos os grupos. Depois, assassinaram os meus quatro companheiros em outubro de 1999. Foi algo terrível”, denunciou.
“A DIREITA ESQUARTEJAVA E JOGAVA ÁCIDO NA CARA”
“O meu atentado à bala aconteceu sete anos depois, em 17 de março de 2004. Já no dia 22 meus irmãos me trouxeram à capital porque as Autodefesas iriam acabar comigo em Santander. Por causa dos balaços, estive quase dois anos sem poder falar – pelo tiro que atravessou a boca e a língua – e sem poder caminhar pelo tiro que tenho nas cervicais”, declarou. A prática da ultradireita era sempre a mesma, asseverou, acompanhada de “esquartejar e jogar ácido na cara de quem considerava oponente”.
Segundo Dom Edgar “já haviam tirado minhas propriedades, o carro, o trabalho, e assassinado meus amigos”, deixando óbvio qual seria o passo seguinte. “Então, depois de me dispararem seis tiros: um que ficou alojado no pescoço, um na boca e outros quatro pelo corpo, pensaram que tinha morrido. Perdi a minha perna por causa de um deles e não houve forma de salvá-la. Tenho um irmão que me ajuda, mas também se encontra muito enfermo”, relatou.
Para o senhor inabilitado, agora também idoso, é fundamental a eleição de Cepeda a fim de que o Estado acolha as pessoas vítimas de problemas tão graves, “uma legião de incapacitados permanentemente, vítimas de estupro, desaparição e deslocamento forçado”, por parte do exército e dos paramilitares.
“Cepeda tem o compromisso de garantir a lei e aprofundar o direito, para o bem dos cidadãos, como fez Petro recentemente com o aumento do salário mínimo e na atenção à saúde e à educação públicas”, frisou.
A campanha suja do terrorismo de Estado, “que se fortalece com os meios de comunicação, que são propriedades dos mesmos”, atinge em cheio o processo eleitoral atual, assinalou Dom Edgar, pois enquanto deixa em insegurança os mais velhos, dá aos mais novos a disposição de correr atrás do prejuízo, buscando informações verídicas sobre as candidaturas.
“Não podemos mais continuar com aquelas vacinas (extorsões) venenosas que a direita utilizava contra as pessoas e o comércio no nosso interior. Precisamos trazer de volta para a Colômbia uma perspectiva de futuro”, concluiu.
Esta cobertura da Agência ComunicaSul de Comunicação Colaborativa só foi possível graças ao apoio do Sindicato dos Bancários de São Paulo; Sindicato dos Escritores do Estado de São Paulo; jornal Hora do Povo; Vermelho; Diálogos do Sul Global; Correio da Cidadania; Barão de Itararé; vereador Werner Tempel (PCdoB) de Santa Maria-RS; Professor Azuaite, de São Carlos-SP; Instituto Angelim, da Internacional dos Serviços Públicos (ISP) e da Central Unitária de Trabalhadores da Colômbia, além de vários contribuintes anônimos.
CONTRIBUA VOCÊ TAMBÉM PELO PIX DA PAPIRO PRODUÇÕES
10.511.324/0001-48
