
Eu estava em Moscou quando ocorreu o 25 de abril de 1974 em Portugal. Fiquei excitadíssimo. Puxa vida, uma revolução no meu idioma.
Não pensei duas vezes. Fui correndo. Consegui chegar a Lisboa no dia 27. E o que encontrei foi uma experiência fantástica.
A população estava em estado de euforia. Manifestava-se de todas as maneiras possíveis — nas ruas, nas praças, nos comícios. Não era apenas na capital. Era no país inteiro. Havia um clima de transformação no ar, uma sensação concreta de que a história estava sendo feita ali, diante dos nossos olhos.
Participei de comícios, acompanhei assembleias, conversei com trabalhadores. Eu atuava como repórter no Diário Expreso, um jornal expropriado e administrado por uma cooperativa de trabalhadores, em Lima, Peru. Era, por si só, uma expressão daquele momento.
Mas o mais impressionante era conviver com o povo português naquela euforia revolucionária. Porque havia, de fato, uma euforia revolucionária. Um sentimento coletivo de ruptura.
A revolução, como se sabe, foi feita por soldados e oficiais que até então combatiam os movimentos de libertação nas colônias africanas — Guiné, Cabo Verde, Angola, Moçambique. De repente, esses mesmos militares deixam de combater e voltam suas armas para dentro, para derrubar o regime.
E o povo responde com um gesto simbólico que atravessou o mundo: distribui cravos aos soldados. Os fuzis passam a carregar flores. Há aquela imagem emblemática — um garoto segurando um fuzil com um cravo enfiado no cano. A força transformada em símbolo de paz.
Mas aquela euforia foi, aos poucos, sendo contida. O processo foi amainado, aplacado. O governo que se instala não é um governo revolucionário, mas uma coalizão de caráter social-democrata, com Mário Soares.
Ainda assim, o que se viveu naqueles dias foi único. Uma revolução feita por militares, abraçada pelo povo, e marcada por uma imagem que sintetiza tudo: a substituição da violência pela esperança.
Todo 25 de abril, essa memória volta a ocupar as ruas. A população toma a principal avenida de Lisboa, em celebração. Desfila, relembra, reafirma. E ali, entre bandeiras e vozes, surge também a presença simbólica de um tanque de guerra, lembrando que aquela revolução teve origem nos quartéis — mas encontrou sua força definitiva no povo.
