
“O único que queremos é ser livres. À medida que as pessoas vão sendo informadas da covarde agressão a que nosso povo está sendo submetido, só cresce o apoio à causa da independência e da autodeterminação”, assinalou Ahamed Mulay Ali Hamadi, representante da Frente Polisário no Brasil
Em entrevista exclusiva, Ahamed Mulay Ali Hamadi, embaixador representante da Frente Polisário no Brasil, destaca “o papel da solidariedade internacional para a independência e autodeterminação de seu povo”, faz um balanço extremamente positivo da semana passada em São Paulo junto ao movimento sindical e partidos progressistas para o isolamento dos EUA, de Israel e de Marrocos na covarde agressão, e adverte “que, à medida que um império em degradação se aproxima de seus estertores, aumenta sua agressividade”. “Daí a relevância de não só ampliarmos a cooperação e a assistência contra a política de segregação imposta pelos que se creem donos do mundo na Organização das Nações Unidas, condenando a política de perseguição, tortura e desaparição dos nossos presos políticos, fortalecendo a causa saarauí, mas também participarmos das caravanas de solidariedade”, enfatizou.
LEONARDO WEXELL SEVERO/HORA DO POVO
Qual a sua avaliação sobre este momento delicado que a humanidade atravessa?
Bem, primeiramente quero agradecer pelo espaço que nos concedem para que a América Latina e o mundo conheçam a situação do povo saarauí. Estamos passando por um momento internacional muito crítico e preocupante devido à ascensão da extrema-direita em vários países. Ela chegou a vencer eleições e hoje dirige nações em que esses governantes – juntamente com o presidente norte-americano Donald Trump, o rei do Marrocos Mohammed VI e Benjamin Netanyahu – estão criando uma situação bastante difícil para os povos, tentando manipular a justiça e o direito internacional e até mesmo enfraquecendo as Nações Unidas, que é a única organização internacional que conduzia o mundo por um caminho um pouco mais tranquilo.

Teremos eleições em novembro nos Estados Unidos – as chamadas de meio de mandato – sobre as quais existem duas visões. Uma sugere que o presidente norte-americano perderá terreno, à medida que as pessoas se afastam dele, abrindo um pouco mais de espaço para os defensores do direito internacional no país. E há outra visão, que é preocupante – pois pode acontecer -, de que ele ganhe força, o que seria terrível para todo o mundo (África, América Latina e até mesmo a Europa), e daria a Trump margem para concretizar muitas de suas ideias contra todos durante o restante de seu mandato.
Temos uma situação no Conselho de Segurança das Nações Unidas e em outras instâncias em que a diplomacia aponta um caminho, mas os Estados Unidos dizem e praticam outro; nada é efetivado. O caso do Saara Ocidental é um exemplo disso.
Como é esse distanciamento dos EUA em relação à ONU?
Acabamos de receber o relatório do secretário-geral das Nações Unidas, que trata extensamente do direito do povo saarauí à autodeterminação – um direito consagrado na Carta das Nações Unidas e respaldado por sentenças e pareceres jurídicos do Tribunal de Haia, do Tribunal de Justiça da União Europeia, da Corte Africana de Justiça e até mesmo da justiça espanhola. No entanto, do outro lado, temos Trump e seus aliados no Conselho de Segurança empenhados em deixar tudo isso de lado, tentando vender o Saara ao Marrocos, já que o rei do Marrocos também está disposto a vender a Palestina a Israel. Por conta disso, o Conselho de Segurança está praticamente morto; está nas mãos desse senhor. Veremos agora o que vai acontecer. De nossa parte, estamos decididos a seguir em nossa luta de resistência até a vitória final.
Por conta desta queda de braço, outubro será um mês-chave para a causa saarauí.
Estamos vivenciando um mês crucial para a causa saarauí, pois ocorrerão três reuniões no Conselho de Segurança da ONU sobre a situação do povo saarauí, seu direito à autodeterminação e as negociações entre o Reino do Marrocos e a Frente Polisário de Libertação Nacional. Tudo isso está sendo debatido no Conselho de Segurança, e nos preocupa o que Trump poderia fazer contra nós e a favor do rei marroquino, visto que este declarou apoio ao sionismo contra a Palestina e pretende, inclusive, abrir sua embaixada em Israel.

Há também a horrível questão da tortura dos presos políticos saarauís e toda a mobilização por sua libertação.
Esta é a situação extremamente degradante vivida na zona ocupada pelo Marrocos, onde praticamente não se respeitam os direitos humanos. Lá a polícia e o exército marroquinos tratam os saarauís de maneira horrível. Há desaparecimentos, perseguições e torturas.
Contra esta brutalidade temos um grupo que agora está em greve de fome devido à situação que enfrenta na prisão marroquina. Trata-se do grupo ligado ao histórico movimento de Gdeim Izik – que envolveu milhares de tendas e famílias que saíram do litoral em direção ao deserto, sendo perseguidas pelo exército marroquino e, em grande parte, massacradas.
É essa a situação que estamos vivendo, e aqui quero agradecer a todos os partidos e movimentos internacionais – e, de forma especial para mim, aos do Brasil – que divulgaram comunicados apoiando os prisioneiros saarauís e apelando à ONU e à Justiça em favor deles.
Como tens sentido a receptividade do movimento social e dos partidos progressistas brasileiros a estas denúncias?
Tivemos encontros com vários sindicatos e centrais. A convite do seu presidente, professor Cláudio Fonseca, tive a honra de participar do Congresso do Sindicato dos Profissionais da Educação do Município de São Paulo – que reúne 50 mil trabalhadores na base -, onde pude me dirigir a quatro mil delegados e delegadas. Me reuni com o presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), Roberto Guido, agradecendo a participação da entidade na última caravana de solidariedade. Também tive o prazer de conversar com o presidente e o secretário-geral da CTB, Adilson Araújo e Ronaldo Leite. Expliquei a situação do povo saarauí e os atualizei sobre o assunto, o que foi algo muito importante. Também concedi algumas entrevistas, e me reuni com dirigentes do PT, do PSOL e do PCdoB, partidos que têm nos acompanhado e auxiliado ao longo da nossa jornada pela libertação.
Temos em novembro uma nova caravana de solidariedade, como estão os preparativos?

Sim, desde 2023 começamos a organizar, anualmente, uma caravana para levar o maior número possível de brasileiros para conhecer a história e a cultura saarauís, a luta – enfim, toda a experiência que o povo saarauí vem construindo em sua batalha pela autodeterminação. Já começamos a preparar a caravana deste ano, que acontecerá em novembro.
As inscrições para conhecer o povo saarauí estão abertas até 25 de outubro. Nas três primeiras caravanas, participaram mais de 100 brasileiros, reunindo jornalistas, professores, estudantes, sindicalistas, políticos e famílias de diversos perfis. Por isso, quero convidar todos os brasileiros, de todos os estados, que queiram conhecer a África – ou uma parte dela, sua cultura, sua história e sua resistência – a entrar em contato conosco.
O que deseja do Brasil que sairá das urnas?
Sempre desejamos o melhor para o povo brasileiro e tenho certeza de que saberá escolher no segundo turno o presidente que lhe abrirá portas e cuidará da educação, da saúde, da alimentação e do bem-estar dos idosos e dos adultos.
Desejo o melhor Brasil de todos os tempos e que, no próximo dia 25, o país saia mais forte, mais próximo dos povos, mais próximo do direito internacional e como defensor das Nações Unidas.
Faço um apelo a todas as brasileiras e a todos os brasileiros para que façam o possível para conhecer a história do único país árabe que fala espanhol – que foi colônia espanhola e agora enfrenta a invasão do Marrocos, país apoiado por Trump, Israel e França contra nós.
Desejo muita força ao povo saarauí para alcançar seu objetivo. A República Árabe Saarauí Democrática já é reconhecida por 84 países no mundo e é membro fundador da União Africana. Queremos fazer um apelo respeitoso ao presidente Lula para que também faça o mesmo que fez pela Palestina em relação à República Saarauí e ao povo saarauí: reconhecer o seu Estado. O reconhecimento por parte do Brasil será um grande apoio à ONU, ao direito internacional e à paz no Norte da África.
