Comissão de Direitos Humanos visita a presídio de El Salvador (CIDH)

Desde o primeiro mandato de Donald Trump observam-se claramente os rasgos de uma sociedade fascistizada

O movimento QAnon, corrente da extrema-direita criado nos Estados Unidos para, segundo eles, defender o mundo de pedófilos, assassinos de crianças e adoradores de satanás, disseminou essa ideologia de maneira massiva a ponto de contaminar todo o continente americano. O QAnon, paradoxalmente, apoiava de maneira radical a Donald Trump, justamente o que é hoje acusado de praticar todos estes crimes dos quais o movimento queria livrar o mundo.

O fato é que este discurso de um “mundo satânico” se espalhou fazendo com que pessoas da pior índole fossem se levantando politicamente em apoio aos políticos da extrema-direita que pregavam essa “limpeza” do mal. Foi assim no Brasil, que elegeu Jair Bolsonaro, em El Salvador, que elegeu Bukele, na Argentina, que elegeu Milei e assim por diante. As propostas contidas nesses programas eram todas muito parecidas: eliminar os comunistas (sic), os homossexuais, os indígenas, as mulheres que não se submetem, os negros. Apostando no medo e pregando a violência essa gente acendeu a chama do fascismo que já vivia em muitas pessoas.

E a sociedade fascistizada gerou governantes “monstros” tanto quanto liberou os piores instintos. Não é sem razão o aumento estrondoso de crimes contra a mulher, massacres da população negra, assassinatos por motivos torpes, perseguição a homossexuais, a religiões fora do cristianismo e por aí vai.

No campo da política esse giro ao autoritarismo e ao fascismo foi galgando posições na América Latina. Nayibe Bukele, presidente de El Salvador, decidiu acabar com o crime encarcerando milhares de pessoas, entre as quais, obviamente, não estavam só os conhecidos membros das maras (gangues), mas também adversários políticos. Construiu o maior presídio das Américas, hoje com 90 mil detentos, e, desde 2022, quando instituiu um regime de exceção, mais de 520 prisioneiros morreram dentro da prisão, entre eles pastores, sindicalistas e menores de idade.

Contando todo o período de Bukele a denúncia é de que mais de duas mil pessoas morreram no presídio, 90% deles sem ligação com as pandilhas. E, sem surpresa, Bukele tem o apoio da população, afinal, havia tanto medo que a mão-dura de hoje parece ser o melhor. Mesmo que ela esteja pegando gente que não tem qualquer ligação com crimes ou com as gangues.

O exemplo de Bukele foi tomando corpo na América Latina e muitos candidatos presidenciais nas últimas eleições o tomaram como modelo. O atual presidente do Chile, José Antônio Kast, fez sua campanha baseada no ódio aos migrantes, prometendo colocar todo mundo na prisão. A sociedade chilena, desencantada com o governo Boric, assustada com o discurso de que os migrantes eram o próprio demônio, votou nesta proposta. E já nos primeiros dias de governo Kast começou a levantar muros na fronteira, visando impedir que migrantes entrem no país. A sociedade aplaude.

ELIMINAR OS POBRES DO ORÇAMENTO

Milei, que fez sua campanha dizendo claramente que ia acabar com as políticas públicas de caráter social, eliminando os pobres do orçamento, privatizando universidades (lugar de comunistas, segundo ele) e hospitais, agora coloca seu país à disposição de famílias sionistas, apoiando o genocídio praticado por Israel e até oferecendo seus jovens para irem “lutar” contra os palestinos. E parte da sociedade segue apoiando esse desvario.

Na Bolívia, que desde o primeiro governo de Evo Morales, iniciou um processo de recuperação da dignidade indígena e camponesa, essa onda fascistizante também chegou. Na última eleição, com a esquerda esfacelada, o caminho ficou aberto para o conservadorismo outra vez. Rodrigo Paz se elegeu com o discurso de acabar com a corrupção (sic) e de garantir o “capitalismo para todos”, seja lá o que isso signifique. Tão logo chegou ao palácio, liberou os golpistas de 2019, começou a “limpeza” das marcas indígenas e já está implantando a velha e conhecida mão-dura. Alegando crescimento do narcotráfico e do crime organizado lançou a proposta de construir um presídio gigante aos moldes do de El Salvador. A sociedade aplaude, porque tem medo. Mas, como em El Salvador, os presídios logo podem se encher de adversários políticos.

No Brasil, a onda fascistizante que chegou com Bolsonaro tampouco passou. Boa parte da população segue acreditando que o discurso da extrema-direita é o que serve ao povo. Apesar de Lula ter vencido as eleições há quatro anos, os “soldados” fascistoides seguem aí, com força e com poder. Basta vermos como se movem o Senado, na Câmara Federal, nas Assembleias Legislativas, nas Câmaras de Vereadores e até nas Universidades. A turma está aí, pregando o ódio e alimentando nas gentes a ideia de que os comunistas são os terroristas, que comem criancinhas e pertencem a satanás. Poucos acreditam que esses, os quais tanto temem e odeiam, são os amiguinhos do Trump, como já está sendo evidenciado pelos Arquivos Epstein.

Agora, estamos às portas de novas eleições no Brasil. Tudo segue bastante polarizado e as hostes bolsonaristas seguem firmes, produzindo propaganda rápida e eficaz, inoculando medo, despertando os piores sentimentos. Muitos seguem acreditando que a família Bolsonaro realmente é a que representa o bem e a ordem.

Há um credo religioso aí, no qual nem os argumentos, nem a realidade tocam. Dias difíceis para nós, uma vez que as fileiras da esquerda estão cada vez mais diluídas em propostas liberais, socialdemocratas e cirandeiras.

Largas lutas se anunciam…

ELAINE TAVARES/CORREIO DA CIDADANIA

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