O Irã levou à mesa de negociações as imagens dos mártires da escola de Minab, em 28 de fevereiro, recordando a covardia do imperialismo e do sionismo

As negociações entre os Estados Unidos e o Irã no Paquistão não representaram uma tentativa genuína de paz por parte norte-americana. Pelo contrário, foram uma continuação da guerra por outros meios. Uma mesa de diálogo foi estabelecida enquanto, paralelamente, Israel realizava bombardeios que mataram centenas de civis no Líbano. Essas operações visavam sabotar qualquer possibilidade real de acordo, bem como estender a agressão genocida.

 

ANDRÉS SILVA, Diário la Humanidad

Desde o primeiro momento, Israel deixou claras suas intenções: sabotar o processo de negociação. O rompimento do cessar-fogo com um ataque brutal ao Líbano, que deixou centenas de civis mortos, não foi um incidente isolado nem uma “resposta defensiva”. Foi uma manobra calculada para inflamar a situação e influenciar as negociações, já que a cessação dos ataques ao Líbano era uma das principais exigências do Irã. A diplomacia é impossível enquanto populações inteiras são bombardeadas, e negociações de boa-fé são impossíveis enquanto um dos principais atores age como um sabotador armado.

Nesse contexto, a posição dos Estados Unidos fica brutalmente revelada. Tendo fracassado em subjugar o Irã militarmente, tentou obter na mesa de negociações o que não conseguiu impor com mísseis. A história se repete: Washington negocia quando fracassa na guerra, mas negocia sem abandonar a lógica da coerção. E, como tantas vezes antes, faz isso por meio da traição. O Irã se apresentou à mesa de negociações disposto a dialogar. Antes dos ataques, as conversas estavam em andamento, os canais estavam abertos, propostas estavam sendo discutidas e uma estrutura diplomática estava sendo construída. Mas o processo foi interrompido pela violência e pela traição do governo dos Estados Unidos, pressionado pelo governo sionista de Israel. Mais uma vez, os EUA tomam a decisão política de bombardear enquanto negociam, de exercer pressão enquanto fingem dialogar.

As palavras do presidente do parlamento iraniano, Bagher Ghalibaf, são mais do que eloquentes e imbuídas de uma força histórica impossível de ignorar: “Diante de nossas iniciativas, os EUA não conseguiram conquistar a confiança do Irã”. Elas são históricas porque o Irã continua a ditar as regras do jogo, tanto militar quanto diplomaticamente. Suas palavras são um diagnóstico, uma síntese de décadas de acordos quebrados, traições e negociações usadas como ferramenta de desgaste.

O gesto da delegação iraniana que viajava com mochilas e fotografias das crianças de Minab, símbolos dos mártires desta guerra, foi belíssimo. É uma lembrança política, a personificação de uma ideia central: que algumas coisas são inegociáveis ​​e o sangue dos mártires não pode ser usado como moeda de troca. “Lealdade ao sangue dos mártires não é negociável”, e este não é um slogan de propaganda do governo iraniano; é uma linha vermelha que farão respeitar.

NO TEXTO SE LÊ: “MEUS COMPANHEIROS DE VIAGEM”

Mas, para além dos gestos simbólicos, o que acabou por fraturar as negociações foram as posições irreconciliáveis ​​quanto ao próprio conteúdo do acordo. É aqui que a diferença entre as duas partes se torna mais evidente.

De um lado, o Irã apresentou exigências claras, coerentes com a sua interpretação do conflito: o levantamento efetivo das sanções econômicas, garantias verificáveis ​​de que os Estados Unidos não abandonariam novamente qualquer acordo eventual, o reconhecimento do seu direito soberano do desenvolvimento nuclear com fins civis, compensação econômica pela destruição causada pelos ataques, controle total sobre o Estreito de Ormuz e, sobretudo, a cessação da agressão militar direta e indireta por parte de Washington e Israel, não só no Irã, mas também no Líbano e em Gaza.

Essas não são exigências maximalistas, mas sim condições mínimas para qualquer Estado que busque preservar sua soberania. Teerã não exige privilégios, mas sim garantias e respeito. Esses 10 pontos que o Irã apresentou ao Paquistão demonstram quem está no comando agora.

Em contraposição, a postura estadunidense revelou mais uma vez sua lógica estrutural e belicosa de dominação. Washington insistiu em restrições profundas e unilaterais ao programa nuclear iraniano, mecanismos de inspeção intrusivos, limitações ao seu desenvolvimento tecnológico e, na prática, uma rendição parcial de sua autonomia estratégica. Tudo isso foi feito sem oferecer garantias reais de cumprimento ou compromissos equivalentes em relação à desescalada militar.

Mas também expôs as mentiras do governo dos EUA e do presidente Donald Trump quando ele afirmou que haviam vencido a guerra e que todos os seus objetivos tinham sido alcançados, que haviam destruído todas as instalações de pesquisa nuclear do Irã. É evidente que essa foi mais uma mentira para encobrir a derrota sofrida.

A desconfiança iraniana, portanto, não é caprichosa; é empírica. Ela deriva da experiência acumulada, de acordos assinados e depois abandonados unilateralmente por Washington, de negociações intercaladas com operações militares paralelas, de uma diplomacia que historicamente funcionou como uma extensão da pressão, e não como uma alternativa a ela.

Enquanto isso, a narrativa ocidental persiste com uma história que desmorona diante dos fatos: a suposta ameaça nuclear iraniana. Não há provas conclusivas de que o Irã estivesse construindo uma bomba atômica. No entanto, essa acusação serviu por anos como justificativa para sanções, agressões, assassinatos e isolamento – uma desculpa conveniente para o imperialismo.

Tanto os Estados Unidos quanto Israel têm ogivas nucleares. No entanto, não são eles que são apontados como uma ameaça existencial. Não são eles que estão sujeitos a bloqueios ou ataques “preventivos”.

A hipocrisia é ainda mais evidente quando se considera quem de fato possui arsenais nucleares. Tanto os Estados Unidos quanto Israel têm ogivas nucleares. No entanto, não são eles que são apontados como uma ameaça existencial. Não são eles que estão sujeitos a bloqueios ou ataques “preventivos”. Esse duplo padrão não é uma falha no sistema internacional; é a sua lógica estrutural.

Nesse cenário, o Irã não aparece como o agressor, mas como um Estado que responde a uma ofensiva conjunta. A coordenação militar, política e estratégica entre os Estados Unidos e Israel constitui uma frente unida que busca subjugar Teerã. O que está em jogo não é apenas a questão nuclear, mas a soberania de uma república que se recusa a renunciar à sua soberania.

Contudo, apesar da guerra, apesar das sanções, apesar dos ataques, o Irã continua a se apoiar na diplomacia como um de seus instrumentos. Não por fraqueza ou ingenuidade, mas como uma estratégia complementar à resistência. Como Ghalibaf declarou, a diplomacia é “outro caminho, ao lado da luta militar, para afirmar os direitos da nação iraniana”.

Aqui reside uma profunda contradição que permeia todo o cenário global: enquanto o Irã insiste no diálogo mesmo sob fogo, os Estados Unidos acumularam décadas de intervenções militares e guerras. Mais da metade de sua história é marcada por guerras, invasões e operações secretas em múltiplas regiões do planeta, deixando e acumulando milhões de mortos, civis assassinados por seu exército.

Paralelamente, Israel sofreu mais de 70 anos de violência estrutural contra o povo palestino, mais de 79 anos de um genocídio que continua sem cessar. O que está acontecendo hoje não pode ser separado dessa continuidade histórica. Não é um episódio isolado, mas a continuação de uma política genocida sustentada.

“O Irã é um só corpo com 90 milhões de almas”, disse Ghalibaf. E essa unidade, forjada sob extrema pressão, é talvez o fato mais relevante de todos. Porque é aqui que as palavras do Aiatolá Ali Hosseini Khamenei podem ser medidas na teoria e na prática quando, ao ser solicitado por seus acompanhantes a levá-lo a um bunker, ele falou: “Se tivermos um bunker para 90 milhões de iranianos, vamos; se não, ficarei aqui”. Em resposta, pediram-lhe que ao menos usasse um colete à prova de balas, ao que ele respondeu: “Se tivermos 90 milhões de coletes, usarei o meu”. E seguindo essa lógica, ele foi martirizado em um ataque no qual sua neta e alguns de seus familiares morreram.

As 21 horas de negociações no Paquistão não conseguiram construir confiança e, sem confiança, nenhum acordo é possível. O Irã sempre demonstrou sua disposição para dialogar, enquanto os Estados Unidos chegaram a Islamabad pensando que estavam em um de seus filmes de Hollywood, onde ditam as regras e sempre vencem. A realidade é que agora é o Irã que dita as regras, e os Estados Unidos… Só lhe resta um caminho: distanciar-se de Israel e reconhecer a sua derrota, ou continuar a confirmar o que grande parte do mundo já percebe: que a sua diplomacia nada mais é do que a continuação da guerra por outros meios.

Nesse tabuleiro de xadrez, o Irã já tomou a sua decisão: manter-se na ofensiva, negociar quando possível, mas não ceder à pressão nem esquecer os seus mortos. Porque há povos que, mesmo sob bombas, continuam a defender mais do que apenas território; defendem a sua dignidade.

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