
A ComunicaSul publica com exclusividade, em português e espanhol, o importante artigo do analista internacional Juan Ramón Guzmán sobre a trágica situação da Venezuela, vítima de uma ocupação militar por parte do imperialismo estadunidense, e de um governo colabotacionista, que mantém imobilizada a reação da Pátria de Bolívar. Comunicador e amigo de longa data, o venezuelano nos faz refletir sobre a inação e a necessidade do levante para a retomada da soberania e da revolução do comandante Hugo Chávez.
Boa leitura.
JUAN RAMÓN GUZMÁN
Era uma vez uma nação que escolheu não fazer nada como estratégia diante de seus inimigos. Tem filósofos como comunicadores e enquetólogos como ideólogos, nessa tarefa de procrastinação. Além disso, conta com um formidável exército de justificadores que saem a explicar a eficácia de cada inação. Digamos que seu cotidiano é como uma espécie de rei nu a quem só falta a criança que o descubra, como um cristo que marcha imutável a seu Gólgota recebendo infâmias e lacerações, sem ter mais faces a oferecer a seus agressores. No entanto, apesar do evidente, finge estar bem em seu imperturbável discurso de vitória.
A verdade é que é uma autêntica loucura, ali onde o nada é o tudo.
Parece que Balzac e Lampedusa, saltando por cima de seus próprios tempos históricos, tivessem combinado escrever a quatro mãos um romance sobre o devir imóvel dessa nação e sua não resposta a cada golpe recebido, como se pregassem uma peça em sua própria população. O certo é que sua grandeza como nação indefesa se reduz como o mágico couro de um asno que realiza desejos a cada excesso e desenfreio, encurtando sua própria vida em pagamento até se extinguir, ao mesmo tempo em que se simulam mudanças na aparência, para que, na realidade, tudo continue igual, como se nada estivesse acontecendo.
Essa nação cuja defesa máxima é não se defender concebeu um sem-número de frases esplêndidas como desculpa para não agir. De todas, por exemplo, “nervos de aço” é a que mais me encanta, porque combina termos contraditórios como sensibilidade com inanimação, ou elasticidade com dureza, para no final não fazer nada enquanto o espólio flagrante e contínuo dessa nação de mãos atadas cavalga a todo galope. É um primor de criação poética da abulia dizer nervos de aço diante de uma surra feroz que se recebe sem levantar um dedo para se defender, e não estou sendo irônico. Essa frase esplêndida é uma metáfora muito bem-sucedida.
E assim muitas outras frases esplêndidas que poderiam ser explicadas, ainda que não com a contundência e a beleza expressiva de “nervos de aço”, reitero.
Diante da imposição de um autoproclamado saído do nada como o suposto “novo Chefe” dessa nação inerme – que já tinha um chefe -, apelou-se a uma requintada frase culinária para acalmar os enfurecidos famintos de justiça e razão, “deixe que cozinhe em seu próprio molho” e, ao final, os cozidos acabaram sendo os habitantes dessa nação sem defesa, que presenciaram aquela vulgar comilança, cujas provisões do festim saíram nada mais, nada menos, da própria despensa desses mesmos habitantes enfurecidos, e aquele bárbaro partiu apressado, repleto e impune, em fuga pactuada, à luz do dia e à vista de todos e todas.
E assim por diante, a cada investida sucedia-se uma frase esplêndida, e a cada frase esplêndida sucedia-se uma omissão sucessiva. Em palavras cruas, uma repetição do absurdo, uma espiral de vergonha, um abuso de quem se acha no direito de zombar do mundo inteiro o tempo todo, impunemente.
Ultimamente, às frases esplêndidas como desculpas para não fazer nada, somaram-se as reinterpretações de máximas e preceitos de antigos tratados militares. Li montes de notas justificadoras a esse respeito, sempre em função de argumentar por que nada se fez, “como análise concreta da situação concreta”, diante de uma ação de guerra, como é injustificável uma invasão estrangeira a uma nação indefesa.
Alegaram a superioridade militar do agressor para não combater nem convocar as tropas. Apenas um punhado de homens e mulheres corajosos teve ali a coragem de se imolar naquele dia.
A mais lamentável dessas justificativas é o caso de uns senhores nessa nação desprotegida de propósito que lhes relato, aos quais, por quase uma dúzia de anos, foi confiada sua defesa militar. Tempo tiveram para elaborar uma estratégia. E até livros escreveram, em especial um refletindo sobre Tucídides e a geopolítica atual do mundo. No entanto, chegado o momento para o qual supostamente se haviam preparado – e ao qual, com anúncios bélicos durante cinco meses seguidos, o invasor lhes havia anunciado que esse momento chegaria -, o que fizeram? Nada! Alegaram a superioridade militar do agressor para não combater nem convocar as tropas. Apenas um punhado de homens e mulheres corajosos teve ali a coragem de se imolar naquele dia. E reparem: esses trapezistas da linguagem até da imolação fizeram objeto de zombaria daqueles que lhes cobram dignidade e decoro diante de comportamento tão ominoso.
Ficaram para trás a união cívico-militar e a guerra de todo o povo como guias de luta revolucionária, com as quais emocionaram incautos em desfiles, marchas e arengas. O único ponto positivo que deixam é que, em seu desmoronamento, sepultaram sob os próprios escombros, como figuras públicas, duas frases esplêndidas que já não se ouvem mais: “duvidar é traição” e “leais sempre, traidores nunca” (só restam, nas redes sociais, como lembrança daquilo, as fotos dos burocratas acomodados em suas contas de Facebook, TikTok e Instagram, quando fingiam mirar e disparar uma arma num alistamento que nunca existiu). Hoje, alguns desses cavalheiros tocam vacas na planície ou observam os girassóis crescer, ou cuidam e abraçam ternamente os netos, enquanto o homem a quem juraram —por lei— proteger e defender com suas vidas está trancado numa prisão estrangeira, onde poderia terminar o resto de seus dias.
Enfim, já para ir concluindo, na abstração dessa nação imaginária, além das frases esplêndidas, das reinterpretações e das inconsequências, há algo também se desenvolvendo que chama a atenção, que quase ninguém entende. Já revelados os fins últimos da invasão estrangeira (que é a apropriação de seus recursos naturais e a dissolução dessa nação não defendida, por meio da partição de seu território), há um plano “de defesa”, que ninguém sabe em que consiste nem em que status está neste momento – exceto seus executores, que sim o conhecem, imagino eu. É uma coisa magnífica, pela carga de criação literária em que consiste: é ceder, ceder e ceder diante de nosso inimigo para ganhar tempo, apostando que as coisas mudem inercialmente na geopolítica mundial para depois reverter a situação, voltar ao ponto inicial e retomar “a revolução”. Fiquei maravilhado. Quando uma boa pessoa amiga me narrou, de sua imaginação, essa Batalha das Queseras del Medio do século XXI [famosa ação militar, em abril de 2019, onde Paes fingiu uma retirada para atrair os espanhóis deu a volta e derrotou os perseguidores], lembrei-me foi de Harry Houdini, o escapista austro-húngaro mais famoso e mais versátil que já existiu no mundo. A ele o amarravam com correntes e cadeados e o colocavam num cofre-forte, e sempre escapava. Fiquei deprimido, depois de pensar bem. Que para essa nação imaginária indefesa não valem ilusões de ótica nem truques de mágica. Que a história e a política se conduzem de outra maneira. Que Páez pôde bater suas forças contra Morillo, depois de fazê-lo crer que fugia derrotado e aplicar-lhe com sucesso sua manobra de “vuelvan caras”, pois mantinha uma coesão monolítica com seus homens, que nunca o abandonaram.
Não. Uma nação imaginária sem defesa alguma é escapista só na literatura e na mente criativa febril de homens como Honoré de Balzac ou Tomás de Lampedusa, como disse no início desta nota. Uma nação real inerme presa nos tentáculos coloniais do imperialismo só pode ser reemancipada por seu próprio povo consciente, organizado e unido, por mais ninguém.
Acarigua, 28 de agosto de 2026
ABSTRACCIÓN ACERCA DE UNA NACIÓN IMAGINARIA
Juan Ramón Guzmán
Érase una vez una nación que eligió no hacer nada como estrategia frente a sus enemigos. Tiene a filósofos por comunicadores y a encuestólogos por ideólogos, en esa tarea de procrastinación. Además, cuenta con un formidable ejército de justificadores que salen a explicar la efectividad de cada inacción. Digamos que su cotidianidad es como una especie de rey desnudo a quien sólo le falta el niño que lo descubra, como un cristo que marcha inmutable a su Gólgota recibiendo infamias y laceraciones, sin tener más mejillas que poner a sus agresores. Sin embargo, pese a lo evidente, finge estar bien en su imperturbable discurso de victoria.
La verdad, es una auténtica locura, allí donde la nada es el todo.
Pareciera que Balzac y Lampedusa, saltándose a sus propios tiempos históricos, se hubieran puesto de acuerdo para escribir al alimón una novela acerca del devenir inmóvil de esa nación y de su no respuesta ante cada golpe recibido, como gastándole a su población una jugarreta. Lo cierto es que su grandeza como nación indefendida se reduce como el mágico cuero de un asno que cumple deseos a cada exceso y desenfreno, acortando a su propia vida en pago hasta extinguirse, a la vez, que se simulan cambios en apariencia, para que, en realidad, todo siga igual, como si no pasara nada.
Esta nación cuya defensa máxima es no defenderse ha ideado a un sinnúmero de frases espléndidas como excusa para no actuar. De todas, por ejemplo, “nervios de acero” es la que más me encanta, porque combina a términos contradictorios como sensibilidad con inanimación, o a elasticidad con dureza, para al final no hacer nada mientras el despojo flagrante y continuado a esa nación de manos atadas cabalga a todo galope. Es un primor de creación poética de la abulia decir nervios de acero ante una coñaza feroz que se recibe sin levantar un dedo para defenderse, y no estoy ironizando. Esta frase espléndida es una metáfora muy bien lograda.
Y así muchas otras frases espléndidas que se podrían explicar, aunque no con la contundencia y la belleza expresiva de “nervios de acero”, reitero.
Ante la imposición de un autoproclamado salido de la nada como el presunto “nuevo Jefe” de esa nación inerme —que ya tenía un jefe—, se apeló a una exquisita frase culinaria para calmar a los enardecidos hambrientos de justicia y razón, “deja que se cocine en su propia salsa” y, a la postre, los cocinados resultaron ser los habitantes de esa nación sin defensa, que presenciaron aquella vulgar comilona, cuyas provisiones del festín salieron nada más y nada menos que de la propia alacena de esos mismos habitantes iracundos y aquel barbarazo se fue raudo, repleto e impune, en huida pactada, a la luz del día y a la vista de todos y todas.
Y así por el estilo, a cada embestida le sucedía una frase espléndida y a cada frase espléndida le sucedía una omisión sucesiva. En crudas palabras, una repetición del absurdo, una espiral de vergüenza, un abuso de quienes se creen con derecho de burlarse de todo el mundo todo el tiempo, impunemente.
Últimamente, a las frases espléndidas como excusas para no hacer nada, se les han sumado las reinterpretaciones de máximas y preceptos de antiguos tratados militares. He leído montones de notas justificadoras a este respecto, siempre en función de argumentar el porqué no se hizo nada, “como análisis concreto de la situación concreta”, en una acción de guerra, como lo injustificable que es una invasión extranjera a una nación indefensa.
La más lamentable de estas justificaciones, es el caso de unos señores en esa nación desprotegida ex profeso que les relato, a quienes por casi una docena de años se les encargó su defensa militar. Tiempo tuvieron para elaborar una estrategia. Y hasta libros escribieron, en especial uno reflexionando a Tucídides con la geopolítica actual del mundo. No obstante, llegado el momento para el cual supuestamente se habían preparado —y al que con bélicos anuncios durante cinco meses continuos el invasor les había anunciado que ese momento llegaría—, ¿qué hicieron? ¡Nada! Alegaron la superioridad militar del agresor para no combatir ni llamar a filas. Apenas un puñado de hombres y mujeres valientes allí tuvieron el coraje de inmolarse ese día. Y fíjense, estos trapecistas del lenguaje hasta de la inmolación han hecho un objeto de burla a quienes les reclaman dignidad y decoro ante tan ominoso comportamiento.
Atrás quedaron la unión cívico-militar y la guerra de todo el pueblo como guías de lucha revolucionaria, con las que emocionaron a incautos en desfiles, marchas y arengas. Lo único positivo que dejan, es que en su derrumbe sepultaron entre sus mismos escombros como personas públicas a dos frases espléndidas, que ya no se oyen: “dudar es traición” y “leales siempre, traidores nunca” (sólo quedan en las redes sociales como recordación de aquello las fotos de los burócratas acomodaticios en sus cuentas de facebook, de tiktok y de instagram cuando disimulaban apuntar y disparar un arma en un enrolamiento que nunca fue). Hoy, algunos de esos caballeros arrean vacas en el llano u observan a los girasoles crecer, o cuidan y abrazan a sus nietos tiernamente, en tanto que el hombre a quien ellos juraron —mediante ley— proteger y defender con sus vidas, está encerrado en una cárcel extranjera, en la que podría terminar el resto de sus días.
En fin, ya para ir finalizando, en la abstracción de esta nación imaginaria, aparte de las frases espléndidas, las reinterpretaciones y las inconsecuencias, hay algo también desarrollándose que llama la atención, que casi nadie entiende. Ya develados los fines ulteriores de la invasión extranjera (que es la apropiación de sus recursos naturales y la disolución de esa nación no defendida, a través de la partición de su territorio), hay un plan “de defensa”, que nadie sabe en qué consiste ni en qué status está en estos momentos – salvo sus ejecutores que sí lo conocen, me imagino yo . Es una cosa magnífica, por la carga de creación literaria en que consiste: es ceder, ceder y ceder ante nuestro enemigo para ganar tiempo, apostando a que las cosas cambien inercialmente en la geopolítica mundial para luego revertir la situación, volver al punto inicial y retomar “la revolución”.
Quedé maravillado. Cuando una buena persona amiga me narró de su imaginación esta Batalla de las Queseras del Medio del siglo XXI, me recordé fue de Harry Houdini, el escapista austrohúngaro más famoso y más versátil que ha existido en el mundo. A él lo amarraban con cadenas y con candados y lo metían en una caja fuerte, y siempre se escapaba. Me deprimí, después de pensarlo bien. Que para esta nación imaginaria indefensa no valen las ilusiones ópticas ni trucos de mago. Que la historia y la política se manejan de otra manera. Que Páez pudo batir sus fuerzas contra Morillo, luego de hacerle creer que huía derrotado y aplicarle su vuelvan caras exitosamente, pues mantenía una cohesión monolítica con sus hombres, que nunca le abandonaron.
No. Una nación imaginaria sin defensa alguna es escapista sólo en la literatura y en la afiebrada mente creativa de hombres como Honoré de Balzac o Tomás de Lampedusa, como dije al inicio de esta nota. Una nación real inerme atrapada en los tentáculos coloniales del imperialismo sólo puede ser re-emancipada por su propio pueblo consciente, organizado y unido, por nadie más.
Acarigua, 28 de agosto de 2026 – 4:44 p.m.
