Em 24 de agosto de 1954, morria Getúlio Vargas. Sua morte não pode ser compreendida fora da profunda crise política que cercava seu governo e do confronto entre dois projetos de país. A crise se agravou depois do atentado da Rua Tonelero, em 5 de agosto, que matou o major da Aeronáutica Rubens Vaz e feriu Carlos Lacerda, o mais feroz opositor de Vargas, que fazia da Tribuna da Imprensa uma trincheira permanente contra o governo.
Cercado por seus adversários e pressionado por setores militares a abandonar a Presidência, Getúlio tomou uma decisão extrema e consciente. Seu suicídio foi também um ato político. Tanto assim que deixou a Carta-Testamento, um dos documentos mais importantes da história política brasileira, na qual sintetizou o sentido de sua luta e anunciou: “Saio da vida para entrar na História”.
Grito de resistência: há 71 anos, Getúlio Vargas escrevia sua carta testamento
Sua obra, seus discursos e sua Carta-Testamento constituem uma verdadeira doutrina do trabalhismo brasileiro. Um trabalhismo que não se limita às relações entre capital e trabalho, mas propõe a construção de um Estado nacional capaz de conduzir um projeto soberano de desenvolvimento, industrialização e inclusão social.
Essa doutrina não morreu com Getúlio. Outros grandes nomes do trabalhismo deram continuidade à sua obra e aprofundaram seu conteúdo.
João Goulart, Leonel Brizola e Darcy Ribeiro estão entre seus principais continuadores. Em diferentes momentos de nossa história, conceberam o trabalhismo como instrumento de transformação da sociedade e como uma via brasileira para a construção do socialismo, fundada na soberania nacional, na democracia, na educação, na organização dos trabalhadores e na justiça social.
Foi sob Vargas que o Brasil criou as bases necessárias para deixar de ser apenas uma economia primário-exportadora e avançar na industrialização. A construção da indústria de base, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Vale e a Petrobras faziam parte de uma concepção estratégica: o Brasil precisava controlar seus recursos fundamentais e criar a infraestrutura necessária ao desenvolvimento industrial.
Ao mesmo tempo, Vargas compreendeu que não poderia haver desenvolvimento nacional sem a incorporação da classe trabalhadora à vida política e econômica. Incentivou sua organização sindical e consolidou uma legislação trabalhista que atravessou décadas. Muitos desses direitos foram posteriormente dilapidados por sucessivos governos e pelas chamadas reformas trabalhistas, mas permanece o princípio fundamental: o desenvolvimento deve servir ao povo, e não apenas à acumulação do capital.

Getúlio também percebeu que um projeto dessa natureza inevitavelmente enfrentaria poderosos interesses internos e externos. Sua Carta-Testamento é explícita ao denunciar a ação dos grupos econômicos e financeiros internacionais e de seus aliados dentro do país. A questão da soberania, portanto, não era acessória. Estava no centro de sua concepção de Brasil.
Sua morte provocou uma extraordinária comoção popular. Multidões tomaram as ruas. A reação do povo modificou a correlação de forças e impediu, naquele momento, a ruptura institucional pretendida pelos setores que pressionavam pela saída de Vargas. A democracia brasileira sobreviveu à crise de 1954.
Independência segundo Getúlio Vargas
O golpe seria consumado dez anos depois, em 1964, com a derrubada de João Goulart, outro presidente trabalhista, numa conspiração que contou com o apoio dos Estados Unidos. Interrompia-se, pela força, mais uma tentativa de levar adiante um projeto nacional de desenvolvimento e transformação social.
Setenta e dois anos depois, a questão colocada por Getúlio continua atual: que Brasil queremos construir? Um país subordinado aos interesses financeiros e às grandes potências ou uma nação soberana, industrializada, socialmente justa e capaz de decidir seu próprio destino?
Por isso, recordar Getúlio Vargas não deve ser apenas um exercício de memória. Sua doutrina do trabalhismo permanece viva na defesa da soberania nacional, dos direitos dos trabalhadores, da industrialização e do papel do Estado como indutor do desenvolvimento.
Continua apontando para o futuro.

