Silvio Rodríguez sempre solidário e combativo junto ao comandante Fidel Castro (EFE)

“Que trema a injustiça quando choram os que não têm nada a perder.

Que trema a injustiça quando chora o aguerrido povo de Fidel”

Já se passaram cinco décadas desde aquele fatídico outubro de 1976, quando agentes da CIA infiltraram duas cargas de explosivos e mandaram pelos ares 73 seres humanos no voo 455 da Cubana de Aviação, após decolar de Barbados. Entre as vítimas, 57 cubanos – 24 deles integrantes da equipe juvenil de esgrima, vencedora do Campeonato Centro-Americano e do Caribe -, estudantes guianenses que iriam à Ilha rebelde para cursar Medicina e uma delegação da República Popular Democrática da Coreia. Os autores confessos do terrorismo de Estado nunca foram julgados.

Na despedida fúnebre do que sobrou dos corpos realizada em 15 de outubro, diante da multidão e da imensidão da dor concentrada na Praça da Revolução, em Havana, o comandante Fidel Castro destacou que “todos os abnegados compatriotas sacrificados covardemente nesse dia viverão eternamente na lembrança, no carinho e na admiração de nosso povo”.

“Eles nos lembram que os crimes do imperialismo não conhecem fronteiras, que todos pertencemos à mesma família humana e que a nossa luta é universal. Não podemos dizer que a dor é compartilhada; a dor é multiplicada. Hoje, milhões de cubanos choram ao lado dos entes queridos das vítimas deste crime abominável. E quando um povo vigoroso e viril chora, a injustiça estremece! Pátria ou Morte! Venceremos!”, enfatizou o líder.

O cantautor cubano Silvio Rodríguez respondeu à vilania daquele assassinato com uma canção breve, reflexiva e direta: “Que trema a injustiça quando choram os que não têm nada a perder. Que trema a injustiça quando chora o aguerrido povo de Fidel”.

A PUJANÇA DO MOVIMENTO NOVA TROVA

A célebre voz e guitarra de Silvio, integrante da Nova Trova – movimento musical surgido na Pérola do Caribe entre o final de 1967 e o início de 1968, ao lado de Pablo Milanés, Noel Nicola e Vicente Feliú – sempre falou mais alto em termos de direitos sociais e humanos. O movimento valorizava as profundas mudanças políticas, sociais e culturais vividos na Ilha, que rompia as amarras do capitalismo e da dependência norte-americana, colocando em xeque o imperialismo com a construção do socialismo.

Silvio Rodríguez sempre valorizou intensamente a contribuição de Fidel Castro ao processo revolucionário: “era um homem brilhante, um homem de grande cultura”. “Fidel era um intelectual, um advogado e intelectual; lia vorazmente, entendia de tudo e mantinha-se extremamente bem-informado. Além disso, possuía carisma, uma história e uma trajetória inquestionável. Seguir em frente sem Fidel não é fácil. Mas é assim que tem de ser”, defende. Afinal, acrescenta, foi “um dos seres humanos mais extraordinários de todos os tempos”.

EXALTAÇÃO AO AMOR, À SOLIDARIEDADE E AO ANTI-IMPERIALISMO

Assisti a Silvio em três oportunidades marcantes de exaltação ao amor, à solidariedade e ao anti-imperialismo em Havana: no Teatro Nacional, lotado com milhares; no Coliseu da Cidade Desportiva, abarrotado com mais de 15 mil; e aos pés da estátua do herói nacional José Marti, com um milhão de vozes inspirando o que há de melhor em cada um de nós. Em todas as concentrações, a comoção se elevava como se tivessem poderes incandescentes. Armadas de coletivismo, tentavam penetrar a insensibilidade inimiga das elites estadunidenses entrincheiradas próximas dali, seja na Flórida ou em Guantánamo.

 

Foram situações mágicas em que ouvi entoarem canções vibrantes como El Necio, (Para no hacer de mi ícono pedazos, Para salvarme entre únicos e impares, Para cederme un lugar en su Parnaso, Para darme un rinconcito en sus altares, Me vienen a convidar a arrepentirme, Me vienen a convidar a que no perda, Me vienen a convidar a indefinirme, Me vienen a convidar a tanta mierda) – como repulsa à traição e súplica aos princípios revolucionários. “Esta é uma canção sobre marketing – sobre a etiqueta de preço. E, para que ninguém imagine que sou um santo, apresento minhas próprias condições (por enquanto): o fim do bloqueio a Cuba e a devolução incondicional do território que os Estados Unidos utilizam como base naval em Guantánamo”, impôs o cantautor.

“Quando escrevi El Necio, pensava em Fidel e, até certo ponto, em mim mesmo. Todas as minhas canções contêm, inevitavelmente, uma forte dose das minhas experiências pessoais. Mas, neste caso, o que me levou a escrevê-la foi o clima ideológico do final dos anos 80 e início dos anos 90 – o colapso do bloco socialista. A Perestroika já estava em curso na União Soviética, e estava claro que as coisas caminhavam para uma catástrofe”, descreveu Silvio.

Igualmente ganharam peso nos corações e nas vozes músicas como Oxalá (Ojalá, por lo menos, que me lleve la muerte, Para no verte tanto, para no verte siempre, En todos los segundos, en todas las visiones. Ojalá que no pueda tocarte ni en canciones) – sobre a reiterada tentativa de apagar da memória o amor infinito –; A era está parindo um coração (La era está pariendo un corazón, No puede más, se muere de dolor, Y hay que acudir corriendo, pues se cae el porvenir, En cualquier selva del mundo, en cualquier calle) – inspirada no exemplo de Ernesto Che Guevara -; e Te dou uma canção (Te doy una canción, y hago un discurso, Sobre mi derecho a hablar, Te doy una canción con mis dos manos, con las mismas de matar, Te doy una canción y digo: “patria”, Y sigo hablando para ti, Te doy una canción, Como un disparo, Como un libro, una palabra, una guerrilla, Como doy el amor) – que comunga a profundidade do querer com a arte do eterno combate.

“Minha música não seria o que é sem a revolução, nem minhas palavras seriam o que são sem a revolução, eu seria outro músico, outro escritor de canções”

“Minha música não seria o que é sem a revolução, nem minhas palavras seriam o que são sem a revolução, eu seria outro músico, outro escritor de canções, e não o que sou. Isso o devo a revolução e por isso sou amado e um pouquinho odiado”, explica.

Deputado na Assembleia Nacional do Poder Popular de Cuba de 1993 até o final de 2007, Silvio considera que “as revoluções não são perfeitas; são necessárias”. “As pessoas que as realizam são seres humanos como você e eu – imperfeitos -; por isso, em uma área da revolução você vê maravilhas acontecendo, enquanto em outra, são feitas coisas insensatas”, assinala, defendendo a importância da luta política e ideológica, e da valorização dos homens e mulheres que se entregam constantemente pela construção de tamanha beleza. Igualmente, realça a necessidade do reconhecimento histórico aos que contribuíram na sua evolução.

Um dos exemplos musicados pelo cantautor foi o de Abel Santamaria, a “alma do Movimento 26 de julho” – conforme Fidel -, revolucionário que aos 25 anos teve os olhos arrancados na tortura sob ordem do ditador Fulgêncio Batista, a serviço do governo norte-americano, após o fracasso da tomada dos assaltos do Quartel de Moncada e de Saturnino Lora, na cidade de Santiago de Cuba. Derrotados militarmente, muitos deles foram executados.

“O FUTURO ESTAVA GUARDADO NA PUPILA DE ABEL SANTAMARIA”

“Arrancaram um de seus olhos. Ele permaneceu em silêncio. Depois, arrancaram o outro. Mostraram o resto ensanguentado à sua irmã Haydée. Com a alma despedaçada, ela também permaneceu em silêncio. Fizeram isso porque o futuro estava guardado na pupila de Abel”, descreveu a jornalista Graziella Pogolotti.

Assim, do exemplo de Abel surgiu “La canción del elegido” (A canção do escolhido), a pedido de sua irmã Haydée Santamaría, fundadora da Casa das Américas e uma das duas mulheres que participaram dos ataques liderados por Fidel. Tomando armas no local, o plano era  deflagrar uma insurreição a partir da Sierra Maestra.

A ideia era produzir um disco com músicas dedicadas ao acontecimento e Haydée convocou a turma da Nova Trova. Silvio conta que ela lhes acolheu, compartilhou histórias e falou sobre a personalidade daquela moçada. “Mártires e figuras dessa natureza são frequentemente vistos como algo grandioso, imenso e inalcançável. Mas ela nos fez mergulhar profundamente na vida daqueles jovens que haviam tombado; não passavam de garotos – jovens que, impulsionados por um ideal de bem para o seu país, apresentaram-se para fazer aquele sacrifício”, relata.

“Isso nos proporcionou uma visão muito próxima daqueles acontecimentos – eventos que permanecem na história do nosso país como um marco importante. Começamos a vê-los de uma maneira muito pessoal e íntima, diretamente do coração de Santamaría. E foi assim que surgiu esta canção dedicada a Abel”, conta.

Conforme a revista Roling Stone, tudo isso também está intimamente ligado à campanha de alfabetização realizada em 1961, quando Cuba se declarou livre do analfabetismo e foi adotado um novo movimento trabalhista com todos alcançando, no mínimo, a sexta série do ensino fundamental, uma formação excepcionalmente alta comparada com o restante da América Latina e do Terceiro Mundo. “Assim, nós, que começamos a tocar violão e a compor canções, levávamos isso em conta; tínhamos consciência de que cantávamos para um povo que já possuía certo nível de instrução – não era uma população analfabeta. Isso nos levou a um comprometimento cada vez maior e, aos poucos, passamos a empregar uma linguagem mais sofisticada e refinada. Menciono isso porque esses fatores sociais e históricos desempenharam um papel fundamental na forma como abordávamos a composição”, descreveu.

“Cuba é um país que foi, mais do que simplesmente bloqueado, torturado por um império em declínio”

Como faz questão de frisar Silvio, cada nação, diante de circunstâncias específicas, deve tentar, de forma criativa, trilhar o seu próprio caminho. “Isso é algo que tem se buscado fazer ao longo de uma trajetória longa e extremamente complexa, pois Cuba é um país que foi, mais do que simplesmente bloqueado, torturado. Foi submetido a uma tortura deliberada e intencionalmente perversa por um império que, embora em declínio, permanece extraordinariamente poderoso e controla praticamente tudo no mundo ocidental; e nós somos, geograficamente falando, parte do mundo ocidental e estamos situados a apenas 90 milhas desse povo”.

Em março deste ano, “em justo reconhecimento à sua disposição patriótica de pegar em armas para defender a pátria”, o Ministério das Forças Armadas Revolucionárias (FAR) concedeu ao cantor e compositor um fuzil Kalashnikov. No dia anterior, o autor de mais de 500 canções havia declarado o compromisso de combater o invasor. “Exijo meu AKM, se eles atacarem. E que fique claro que digo isso muito seriamente”, escreveu Silvio, de 79 anos.

No centenário do comandante Fidel Castro, sua lição de abnegação e desprendimento nos convoca a confrontar a política belicista de Donald Trump com a determinação iraniana, a covardia nazi-israelense com a resistência palestina, o entreguismo de Javier Milei com a garra peronista, o servilismo de Flavio Bolsonaro com o projeto de reconstrução nacional de Lula.

Que o exemplo das nossas raízes frutifique e se irradie nas palavras de José Martí, líder da independência cubana: “Pátria é humanidade!”.

LEONARDO WEXELL SEVERO

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