O candidato Bolsonaro quer ser presidente do Brasil e declarou ter inveja da Argentina sob o governo Milei pois a economia do país vizinho vai de vento em popa, segundo indicadores de mercado. Ele diz que se eleito vai seguir os passos do correligionário de extrema direita.

CAIO TEIXEIRA – COMUNICASUL

Joseph Goebels, o mago da propaganda de Hitler, ensinou que é possível dizer uma grande mentira falando apenas a verdade. Tal ideia é até hoje um dogma dos profissionais de propaganda em todo o mundo, fundamental para convencer qualquer pessoa que ela deve comprar imediatamente algo que não precisa. Vamos ver o que dizem os tais indicadores econômicos.

Os dados invejados por Bolsonaro apontam um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) até março passado, segundo o INDEC (equivalente argentino ao IBGE), de 5,5% ao ano, e de 3,5% em relação a fevereiro. Sem dúvida, parece um excelente resultado comparado ao crescimento do PIB brasileiro dos últimos doze meses, que ficou em 1,7% (FGV). O problema é que o aumento do Produto Interno Bruto por si só não é indício de que as coisas vão bem para todos, muito menos “renda per capita”, frequentemente usada para alardear sucesso econômico.

Segundo o economista e pesquisador argentino Julio Gambina, “o crescimento do PIB se explica principalmente pela novidade na acumulação: a energia, a mineração e o setor associado ao conhecimento e às novas tecnologias. A eles se soma o tradicional setor do agronegócio e as finanças. Por outro lado, em retrocesso, vão o comércio, a indústria e a construção”, setores não favorecidos, segundo ele, pelo “núcleo atual da acumulação capitalista local”, sem falar nos rendimentos em queda dos salários e aposentadorias que ficam sempre atrás da inflação.

O gestor das finanças de Milei é Luis Caputo, ultra-liberal que já dirigiu a economia argentina no governo Macri, da direita tradicional, quando foi responsável pela “renegociação” da dívida externa do país e resultou num empréstimo de 57 bilhões de dólares do FMI. Esse acordo obrigou o país a fazer os ajustes de sempre: reduzir salários, direitos trabalhistas, aposentadorias, gastos públicos com saúde, educação, segurança, investimentos. Deste montante, 44,5 bilhões de dólares nem entraram na Argentina pois foram integralmente gastos para rolar empréstimos internacionais vencidos e impedir que o país ficasse inadimplente, ou em “moratória”, o que prejudicaria o mercado financeiro. Os restantes 12 bilhões também não ficaram na Argentina. Foram entregues ao “mercado”, leia-se bancos, para permitir a fuga de capitais para o exterior. Ou seja, o atual ministro da economia endividou os trabalhadores através do Estado para repassar bilhões ao mercado internacional de capitais sem gastar um centavo sequer com investimentos em infraestrutura, ciência e tecnologia ou qualquer benefício para o povo que ficou só com a dívida.

CHOQUE DE CAPUTO DESVALORIZOU O PESO ARGENTINO EM 54%

Milei o trouxe de volta à condução da economia, e Caputo fez o que se poderia esperar de alguém como ele: logo de início deu um choque cambial que desvalorizou o peso argentino em 54% com enormes prejuízos enormes à população. É como se o dólar no Brasil passasse dos atuais R$ 5,5 para R$ 8,5 de um dia para o outro. Caputo também criou o “Regime de Incentivo a Grandes Investimentos”- RIGI. O nome é autoexplicativo e a medida visa atrair capitais internacionais pois o país precisa continuar rolando a imensa dívida dos 57 bilhões.

O problema é que não está funcionando pois o risco país, índice criado pelo mercado financeiro internacional para apontar países seguros para investimentos estrangeiros está altíssimo, em cerca de 400 pontos (o do Brasil é de 116), e os capitais somente estão chegando em setores que colocam a soberania em risco, como mineração, especialmente terras raras, e petróleo, no caso o xisto da reserva de “Vaca Muerta” na Patagônia. Na área de tecnologia, os investimentos, em tese no desenvolvimento de IA, não tem a ver com transferência de conhecimento científico que poderia levar a Argentina à independência tecnológica. Ocorre que as grandes empresas de IA só querem se aproveitar da energia elétrica produzida por usinas movidas a gás, abundante no país (60% da matriz), e hidrelétricas que passam de 20%. Pode-se ter uma ideia da importância desse setor ouvindo o discurso de Trump no final da Cúpula da OTAN dia 8 passado. “Pegue toda a energia que os Estados Unidos produzem e essa única indústria, que é tão grande, tão poderosa, precisa de mais do que isso. Na verdade, algumas pessoas dizem quase o dobro”, afirmou o senhor do império referindo-se à industria de IA estadunidense. Tanta energia é necessária para fazer rodarem os imensos servidores dos data centers das big techs e resfriá-los.

Quando Milei enche a boca para falar da quantidade de empregos criados por sua política econômica, é preciso registrar que são totalmente precários, pois os direitos trabalhistas foram praticamente extintos e as aposentadorias foram quase inviabilizadas, além de terem seu valor reduzido pelas reformas da direita durante os governos Macri e Milei. Além disso, a classe trabalhadora teve seu acesso à saúde e à educação públicas e gratuitas extremamente reduzidos devido aos cortes orçamentários promovidos por Caputo em seu “ajuste fiscal” no início do governo Milei.

Segundo dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC), a taxa de desemprego subiu de 5,7% no final de 2023, início do atual governo, para 7,8% no primeiro trimestre de 2026, com mais de 1,7 milhão de pessoas impactadas em todo o país. Além do emprego público, afetado pelo “ajuste fiscal”, os setores mais atingidos foram justamente a construção e a indústria que registraram as quedas mais acentuadas devido à paralisação das obras públicas e à redução da atividade no setor privado.

O DISCURSO OFICIAL DA MÍDIA HEGEMÔNICA

Mesmo sabendo disso, muitas pessoas, influenciadas pelo discurso oficial da mídia hegemônica, alimentam pensamentos no sentido de que os ajustes teriam sido necessários para segurar a inflação.
Gambina lembra que a guerra no Oriente Médio com os ataques dos Estados Unidos ao Irã tem impacto no preço do petróleo, e isso, “do ponto de vista da macroeconomia argentina, significa melhores preços para a exportação da produção instalada em Vaca Muerta”. Milei finge ignorar o caráter circunstancial desses ingressos para afirmar que a macroeconomia vai bem, omitindo também que, desde o governo de direita de Macri, a macroeconomia argentina tem como fundamento tomar empréstimos novos para pagar parcelas de empréstimos velhos e tudo em dólares. A dívida pública brasileira é em Reais, moeda nacional sob controle do Estado brasileiro.

O economista chama atenção para outro aspecto que é convenientemente omitido pela mídia hegemônica. A saída de capitais é maior que o volume de exportações. Como exemplo, cita ele, no mês de maio se registraram 10,8 bilhões de dólares de exportações e quase 8 bilhões de dólares de importações, portanto um superávit comercial próximo dos 2,9 bilhões de dólares, o que, analisado em separado é um bom resultado. Mas, lembra Gambina, “a saída de capitais por pagamento de juros, por remessas de lucros ao exterior ou por dolarização dos excedentes foi de 4,3 bilhões de dólares. Ou seja, a Argentina teve um excedente genuíno de divisas de quase 3 bilhões, mas saíram do país 4,3 bilhões”, porque isso representa em termos reais uma perda entre o ingresso genuíno e a saída de capitais da Argentina.

Voltando ao início, é verdade que o saldo da balança comercial (exportações menos importações) foi positivo e isso é bom, mas quando se introduz na conta a saída de capitais vemos que a situação da economia é péssima e os resultados não servem ao país. As empresas de petróleo também vão bem, beneficiadas pela guerra provocada pelos EUA que mantém os preços nas alturas. Dentre elas estão a Shell, a Chevron e a Total Energy. Os EUA e o Chile são os maiores compradores do petróleo argentino, responsáveis juntos por aproximadamente 80% das exportações do produto. Entretanto, pode-se afirmar que se o sistema financeiro, as transnacionais e algumas grandes empresas nadam de braçada com a política econômica, o mesmo não se pode dizer dos seus próprios trabalhadores, pois todos os empregos na Argentina foram precarizados de uma forma ou de outra e os salários reduzidos drasticamente com a desvalorização do peso e pela ausência de reajustes. Os aposentados com pensões reduzidas e sem acesso à saúde realizam manifestações cada vez maiores em frente ao Congresso todas as semanas e são reprimidos com extrema violência pelo governo.

Na semana que vem uma equipe de jornalistas da Agência ComunicaSul estará na Argentina para acompanhar de perto as mobilizações, conversar com trabalhadores, sindicatos, aposentados, desempregados e fazer um retrato ao vivo do modelo que Bolsonaro quer trazer para o Brasil.

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