Com faixas de Perón e Evita, centrais sindicais, movimentos sociais e partidos se somaram aos aposentados e pensionistas em frente ao Congresso nesta quarta-feira (CTA-T)

Manifestantes condenam submissão ao FMI, exigem retorno à distribuição de medicamentos gratuitos, condenam sucateamento do Programa de Atenção Médica Integral e o desvio de recursos do sistema previdenciário

Na mesma quarta-feira (22) em que o governador Tarcisio de Freitas anunciou que concederia a Javier Milei a mais alta honraria do estado paulista, milhares de argentinos voltaram a marchar em frente ao Congresso Nacional, em Buenos Aires, para execrar o fantoche de Trump, rechaçar os sucessivos cortes na Previdência Social, o brutal arrocho nas aposentadorias e a selvagem repressão contra aposentados e pensionistas – que consumiu, oficialmente, pelo menos dois bilhões de pesos (R$ 6,8 milhões) em 2025.

Ao todo foram 43 “operações” policialescas em que sobraram gás lacrimogêneo, spray pimenta, cacetadas e jatos de água de caminhões-bomba contra senhores e senhoras de mais de 80 anos, onde ficaram feridas, com diferentes graus de intensidade, mais de 500 pessoas. “Para a repressão não há motosserra”, sintetizou Victoria Darraidou, coordenadora da equipe de Segurança Democrática e Violência Institucional do Centro de Estudos Jurídicos e Sociais (CELS).

Cobrando justiça para os idosos e em repúdio à política de submissão da Casa Rosada ao Fundo Monetário Internacional (FMI), centrais sindicais, movimentos sociais e partidos se somaram às tradicionais marchas de quarta-feira exigindo o retorno à distribuição de medicamentos gratuitos e condenando o sucateamento do Instituto Nacional de Serviços Sociais para Aposentados e Pensionistas (Pami) – maior agência de seguro-saúde público da Argentina.

“SEGURIDADE SOCIAL É UM DIREITO, NÃO UM PRIVILÉGIO”

Ao mesmo tempo, erguendo faixas com imagens de Perón e Evita e reiterando que “a Seguridade social é um direito, não um privilégio”, os manifestantes disseram um rotundo não à reforma trabalhista e ao Fundo de Assistência Laboral (FAL), armado por Milei para desviar recursos do sistema previdenciário. O FAL, esclareceram, gera contínuos cortes orçamentários e diminui a sustentabilidade das aposentadorias, atentando contra os direitos de quem dedicou toda uma vida à construção de um país mais justo.

“Não abandonar as ruas, mesmo que uma vez por semana, vai gerando a consciência necessária para que a reivindicação não seja somente dos aposentados e pensionistas, mas que envolva toda a classe trabalhadora, como ocorreu na última quarta-feira”, defendeu Olivia Ruiz, secretária de Previdência Social da Central de Trabalhadores da Argentina Autônoma (CTA).

A dirigente recordou que com Milei, “o bônus extraordinário da Administração Nacional da Previdência Social (Anses), não é reajustado desde 2024, a cobertura integral de medicamentos foi suspensa, os agendamentos médicos para todos os tipos de atendimento foram adiados e acabou a possibilidade de pagar os anos que faltam para se aposentar ao atingir a idade de aposentadoria, já que a lei de moratória, que expirou em março de 2025, não foi prorrogada”.

No governo anterior, o valor do bônus chegou a representar metade do salário mínimo. Hoje, no máximo, dá para comprar dois botijões de gás, mas o governo está anunciando o seu fim com a decisão judicial da liminar.

Para completar, condenou Olivia, foi aprovada uma lei de reforma trabalhista que utiliza recursos da Anses para pagar demissões e indenizações. Ao mesmo tempo em que necessitamos ampliar a pressão sobre o Congresso, frisou, “precisamos reverter esta situação negando o voto a este governo genocida e construir a possibilidade de ter um governo progressista, com um projeto de distribuição, solidário e público, que garanta os direitos constitucionais aviltados”.

65% DOS APOSENTADOS E PENSIONISTAS RECEBEM O MÍNIMO

Conforme a Anses, dos 7,9 milhões de beneficiários, 5,1 milhões (65%) receberam em julho a aposentadoria mínima de $ 411.989,33 (R$ 1.411), aos quais se somou um bônus extraordinário de $ 70.000 (R$ 239,80), totalizando $ 481.989,33 (R$ 1.651). Esses valores não dão a dimensão da catástrofe, já que o preço do quilo de café ultrapassa os $ 60 mil (R$ 205,00).

“Isso fez com que tenha aumentado o número de suicídios. Muita gente também faleceu por abandono, negligência do governo ou por não ter recebido os medicamentos no tempo devido. Outros continuam morrendo”, acusou a secretária de Previdência Social da CTA-A.

No primeiro trimestre de 2026, os pagamentos da Previdência despencaram 41,3% em termos reais em relação ao mesmo período do ano anterior, com o Tesouro Nacional não tendo transferido um único peso para a agência em março. Dessa forma, a dívida acumulada com médicos, clínicas e farmácias chegou a 500 bilhões de pesos (R$ 1,72 bilhão).

Cirurgias tiveram de ser suspensas, tratamentos de câncer foram interrompidos e os hospitais públicos ficaram completamente sobrecarregados, com os das províncias (estados) sendo forçados a absorver um aumento de 30% na demanda, sem nenhuma compensação do governo federal. Os dados oficiais confirmam que a crise está impactando no crescimento da mortalidade.

Para o ministro da Saúde, Mario Iván Lugones, não há outro caminho a não ser acelerar as mortes, afinal como esbravejou, “o Pami tem cerca de um milhão de pessoas com mais de 80 anos entre seus milhões de beneficiários”. “Tem quase seis mil pessoas com mais de 100 anos. É um fardo muito grande”, reclamou o carrasco neoliberal.

“UMA EM CADA QUATRO RECEITAS DEIXOU DE SER AVIADA POR MOTIVOS ECONÔMICOS”

Os medicamentos oncológicos e para doenças crônicas – cujo tratamento não pode ser suspenso – foram os primeiros a escassear, sendo postergados ao longo de meses pelo Ministério. As farmácias de bairro dependem do fluxo de pagamentos do Pami para manter seu crédito junto aos atacadistas de medicamentos: quando esse fluxo é interrompido, o crédito também é cortado. Assim, alertam as centrais, “uma em cada quatro receitas deixou de ser aviada por motivos econômicos”.

Membro da direção da Confederação Geral do Trabalho (CGT), Jorge Sola afirmou que, desde que Milei assumiu, “foram perdidos mais de 300 mil empregos e fechadas mais de 23 mil pequenas e médias empresas”. Por outro lado, Sola apontou que “o governo abandonou a produção e o desenvolvimento industrial”, o que significou um crescimento da informalidade e da precarização. Tal postura, além da negligência com o Estado, contribui para a deterioração do sistema de saúde, “alimentando um crescente mal-estar social”.

Para o secretário-geral da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras da Argentina (CTA-A), Hugo “Cachorro” Godoy, “os aposentados são um exemplo da dignidade do nosso povo e esta etapa do plano de luta liderada pelas três centrais vem se inspirar no seu exemplo e nos unir a eles para que nos guiem nesta tarefa de derrotar este governo que quer destruir as aposentadorias e os salários, a ciência e a tecnologia, e desestruturar a própria pátria”. “Continuaremos lutando em defesa da soberania, seguindo o exemplo das gerações de aposentados, com a organização de uma greve nacional para abrir as portas para um horizonte de esperança, com uma pátria emancipada e um povo que possa viver com dignidade”, acrescentou.

“MILEI ASSUMIU O COMPROMISSO COM O FMI DE PRIVATIZAR NOVAMENTE O SISTEMA DE APOSENTADORIAS”

Na avaliação do secretário-geral da CTA-T e deputado federal, Hugo Yasky, “trata-se de defender um direito de todos aqueles que têm trabalho formal e informal, que é chegar ao fim de sua vida profissional e ter garantida uma vida digna”. “Não podemos deixar de pensar que este é um governo que, perante o FMI, assumiu o compromisso – caso vença a eleição no ano que vem – de privatizar novamente o sistema de aposentadoria”, denunciou.

Se dependesse de Milei, advertiu Hugo Yasky, “os argentinos estariam vivendo a contagem regressiva para o fim da aposentadoria pública e solidária”. “Precisamos lutar para impedir que se concretize essa verdadeira fraude, que significará ter um país como outros do mundo, onde chegar ao fim da vida profissional é um castigo. Acredito que o que estamos vivendo hoje é uma vergonha, além da indignidade que representa essa repressão do governo, que tem como alvo principal os mais idosos”, assinalou.

Quanto ao absurdo corte no plano “Remediar” – para distribuir uma lista de fármacos essenciais gratuitamente, atualmente reduzida de 79 para apenas três medicamentos básicos voltados para doenças cardiovasculares – e ao encerramento do programa “Voltar ao Trabalho” – que beneficia 900 mil pessoas com 78 mil pesos por mês (267 reais!), o parlamentar apontou que é mais “uma demonstração da insensibilidade e da brutalidade de um governo que impõe cortes até mesmo àqueles que vivem na indigência”. “Tirar 78 mil pesos de indigentes é realmente um ataque nefasto”, frisou.

Pablo Moyano, também do comando da CGT e secretário-geral adjunto do Sindicato dos Caminhoneiros, recordou ter estado ao lado de cada marcha dos aposentados com cozinhas comunitárias. “Hoje era uma responsabilidade e uma obrigação acompanhar a mobilização das centrais e dos movimentos sociais. Esperamos que este seja o início da derrota deste governo que está causando tanto dano. Que seja o aprofundamento de uma resistência contra um governo tão prejudicial e que causa inumeráveis danos a milhões de argentinos”, expressou.

O presidente da Associação dos Trabalhadores do Estado (ATE Capital) e secretário-geral adjunto da CTA-T, Daniel Catalano, disse que a redução de quase um milhão de vagas no “Voltar ao Trabalho” em meio ao recrudescimento da crise é simplesmente “brutal”. O fato, explicou, é que “esse corte representa o desmantelamento das economias regionais, pois tem um impacto territorial”. “Esse dinheiro ia diretamente para a mercearia, para o quiosque, para a feira do bairro, e hoje não estará mais lá. Assim, nosso povo continua se desgastando, continua se empobrecendo, continua sofrendo. Os bloqueios de estradas hoje em todo o país foram massivos, foram muito necessários e é preciso intensificar a luta”, defendeu.

“Continuamos marchando pelo mesmo motivo pelo qual marchamos todas as quartas-feiras”, apontou Catalano, “para que a aposentadoria mínima não seja uma mentira, para que ela garanta aos aposentados o sustento, o aluguel e permita que comam duas vezes por dia – algo que hoje seis milhões deles não conseguem fazer. Portanto, diante da angústia da fome do nosso povo, marchamos hoje em um espírito de unidade”.

LEONARDO WEXELL SEVERO/ HORA DO POVO

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