A memória dos que partiram e a resistência ao pensamento único do capital financeiro

Fazer 90 anos é carregar uma travessia inteira dentro da memória. São décadas de sonhos, derrotas, vitórias e esperanças acumuladas. Mas o que mais dói talvez seja a lembrança dos companheiros que ficaram pelo caminho. São muitos os rostos, muitas as vozes, muitos os camaradas de luta que já não estão presentes fisicamente, embora continuem vivos na memória e na história.

A passagem do tempo não suaviza essa ausência. Ao contrário. Em certos momentos ela se torna ainda mais intensa, porque cada lembrança traz junto um pedaço da vida compartilhada: as reuniões clandestinas, os debates intermináveis, as campanhas políticas, as utopias que moviam gerações inteiras. Muitos tombaram acreditando que um outro mundo era possível.

E, no entanto, a luta continua.

Continua porque o inimigo não desapareceu. Ao longo dessas décadas, ele apenas se fortaleceu e se sofisticou. O imperialismo segue reorganizando sua dominação em escala global, agora apoiado pelo poder avassalador do capital financeiro, das corporações transnacionais e dos monopólios da informação. O que antes se impunha pela força militar direta, hoje também se impõe pelo controle da narrativa, pela manipulação da opinião pública e pela tentativa permanente de impor um pensamento único ao mundo.

É justamente contra esse pensamento único que seguimos lutando.

A resistência já não acontece apenas nas ruas ou nos parlamentos. Ela acontece também no terreno da comunicação, das ideias e da batalha cultural. Informar, analisar, contextualizar e oferecer ao leitor uma visão crítica do mundo tornou-se parte essencial da luta política contemporânea.

Esse é o sentido do nosso trabalho na Diálogos do Sul Global.

A revista nasceu e continua existindo como espaço de resistência intelectual e política, comprometida com os povos do Sul Global, com a soberania dos países periféricos e com a construção de uma ordem internacional multipolar, capaz de enfrentar a hegemonia imperial e financeira que tenta submeter o planeta inteiro aos interesses de uma minoria.

Chegar aos 90 anos talvez seja isso: olhar para trás com saudade dos companheiros que partiram, mas sem abandonar a trincheira. A memória deles não serve para alimentar nostalgia estéril. Serve para renovar o compromisso com a luta.

Porque a luta é contínua. É uma luta histórica pela libertação nacional, pela soberania dos povos, pela independência diante do imperialismo e pela construção de uma sociedade mais justa, humana e solidária.

Enquanto houver dominação, haverá resistência. E enquanto houver resistência, continuará viva a esperança de libertação dos povos.

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