Com taxa de 14,75%, gasto com juros explode, dívida dobra em uma década e paralisa investimentos em meio à crise internacional

PAULO CANNABRAVA FILHO/Diálogos do Sul Global

O Brasil segue prisioneiro de uma política econômica que prioriza o sistema financeiro em detrimento da produção e do bem-estar da população. Com a taxa de juros mantida em 14,75%, o custo da dívida pública já ultrapassa a marca de um trilhão de reais, consumindo parcela crescente das riquezas nacionais.

Em 2025, o país destinou 7,9% do PIB ao pagamento de juros, percentual que deve alcançar 8% em 2026, muito acima da média histórica de 6%. Trata-se de uma trajetória insustentável, que não apenas estoura qualquer meta fiscal, como também não apresenta horizonte de reversão. Em apenas dez anos, a dívida pública saltou de 5 trilhões para 10 trilhões de reais, atingindo 78,7% do PIB — um crescimento que reflete diretamente a submissão da política econômica aos interesses do capital financeiro.

Submissão da política econômica ao capital financeiro impõe um duplo estrangulamento: o Estado se endivida, enquanto a população é empurrada para o endividamento (Fabio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil)

Essa lógica impõe um duplo estrangulamento: o Estado se endivida para sustentar a engrenagem financeira, enquanto a população é empurrada para o endividamento. Hoje, cerca de 80% dos brasileiros convivem com dívidas, e o nível de inadimplência alcança patamares alarmantes. A economia real sente o impacto imediato dessa política, com retração do consumo, queda nos investimentos e aumento da insegurança econômica.

No setor produtivo, especialmente no agronegócio, os sinais de desaceleração são evidentes. O aumento expressivo do diesel — que chega a registrar alta próxima de 50% em algumas regiões —, somado ao encarecimento dos fertilizantes e ao custo elevado do frete, compromete a rentabilidade e inibe novos investimentos. Diante de um cenário em que a conta não fecha, a tendência é pisar no freio.

A conjuntura internacional agrava ainda mais esse quadro. O fechamento do estreito de Ormuz pelo Irã, por onde transita cerca de um quinto do petróleo mundial, e os ataques a países do Golfo, aliados dos Estados Unidos, impactam diretamente a oferta global de energia e pressionam os preços. O resultado é a elevação dos custos internos em países dependentes de derivados, como o Brasil.

Embora seja exportador de petróleo bruto, o Brasil segue dependente da importação de gasolina, diesel e querosene. A venda de refinarias nos últimos anos aprofundou essa vulnerabilidade, obrigando o país a importar derivados em volume muito superior ao que seria necessário caso mantivesse sua capacidade de refino. Trata-se de uma escolha política que compromete a soberania energética e agrava os efeitos das crises externas.

O quadro que se desenha é o de uma economia travada, submetida aos interesses do sistema financeiro, vulnerável às oscilações internacionais e incapaz de sustentar um projeto consistente de desenvolvimento. Sem enfrentar a lógica dos juros elevados e sem recuperar instrumentos estratégicos como o refino de petróleo, o país seguirá refém de uma dinâmica que concentra renda, amplia desigualdades e bloqueia o futuro.

Diante desse cenário, impõe-se a urgência de um projeto de salvação nacional. Em ano eleitoral, abre-se uma janela decisiva para renovar a representação política e recolocar o país nos trilhos do desenvolvimento. É hora de eleger dirigentes comprometidos com a soberania, com a produção e com o interesse nacional — capazes de romper com a lógica rentista e reconstruir as bases de um projeto que devolva ao Brasil a capacidade de decidir seu próprio destino.

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