José Reinaldo Carvalho, presidente do Cebrapaz, denuncia pretexto falso para guerra, riscos à multipolaridade e pressão imperialista sobre Brasil, Cuba e Venezuela.

Em edição nesta quinta-feira (12), o programa Entrelinhas Vermelhas trouxe uma análise sobre o cenário geopolítico global, com foco na agressão militar dos Estados Unidos e Israel contra o Irã e seus desdobramentos para a América Latina. O convidado José Reinaldo Carvalho, presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) e membro do Comitê Central do PCdoB, desmontou os argumentos usados para justificar a guerra e alertou para os riscos à soberania dos povos da região.

Assista a integra da entrevista:

Pretexto falso: a mentira da “ameaça nuclear” iraniana

Carvalho foi enfático ao afirmar que a acusação de que o Irã estaria desenvolvendo armas nucleares é “completamente falsa”. “Exatamente na Guerra dos Doze Dias, ambos os agressores disseram que tinham destruído as capacidades iranianas para construir uma bomba atômica”, lembrou. Além disso, destacaram-se negociações em curso: dois dias antes dos ataques, Irã e EUA haviam concluído a terceira rodada de diálogos em Genebra, com perspectiva de quarta rodada e reunião técnica em Viena.

“Ao invés de restaurar o acordo nuclear de 2015, Trump restaurou as sanções”, criticou. Para o analista, a guerra cumpre objetivos estratégicos expansionistas: “colonização total do Oriente Médio” por parte dos EUA e “liquidar o Irã como nação soberana”, no caso de Israel.

Resistência iraniana: mísseis, drones e o estreito de Ormuz

Apesar da inferioridade bélica frente aos EUA, o Irã demonstrou “capacidade invejável de resistência”, segundo Carvalho. O país tem utilizado enxames de drones e ondas de mísseis contra alvos em Israel e bases estadunidenses no Golfo, além de exercer controle estratégico sobre o Estreito de Hormuz — rota por onde passa 20% do petróleo global.

“O Irã pode permitir, conta-gotas, a saída de petroleiros que lhe interessam”, explicou. Essa capacidade gera desgaste econômico global e pressiona a opinião pública nos EUA, onde a gasolina já subiu mais de 20%. “Trump disse que a guerra pode acabar antes, mas no dia seguinte foi o mais intenso da guerra”, observou.

Pressões internas nos EUA: guerra impopular em ano eleitoral

Carvalho detalhou as crescentes pressões contra a guerra dentro dos próprios EUA: setores do movimento MAGA, assessores do governo, parlamentares democratas e veículos como New York Times e Wall Street Journal têm questionado a estratégia. “Há conselhos para Trump declarar vitória e sair”, revelou.

O analista vinculou esse cenário ao calendário eleitoral: “Ele morre de medo de perder a maioria congressual e surgir pedidos de impeachment”. A guerra, portanto, torna-se um fator de instabilidade política interna para o governo republicano.

Multipolaridade em disputa: declínio dos EUA não se reverte com guerra

Questionado se a ofensiva militar estadunidense poderia restaurar a unipolaridade, Carvalho foi categórico: “Não”. Para ele, a emergência da China, a resistência da Rússia e a afirmação do Sul Global constituem processos históricos imparáveis.

“O que vemos é a reação do imperialismo ao seu declínio, mas apenas por meios militares não é sustentável”, avaliou. “A multipolaridade pode engendrar novos conflitos antes de construir novo ordenamento. Antes de melhorar, pode piorar muito”, alertou, citando a autocrítica de Fukuyama: “Quem estava certa era a Coreia do Norte”.

Escudo das Américas: pacto militar ameaça soberania regional

O programa também abordou a cúpula do “Escudo das Américas”, na Flórida, onde Trump firmou pactos militares com Argentina (Javier Milei), Paraguai (Santiago Peña) e El Salvador (Nayib Bukele). “É um passo na aplicação da estratégia de segurança que declara os EUA preeminentes no hemisfério”, analisou Carvalho.

O analista alertou para declarações intempestivas de Trump sobre Cuba: “Vamos concluir um trabalho em Cuba, vamos substituir o regime”. “Uma ação agressiva contra Cuba seria um trauma para toda a América Latina”, ponderou, destacando a heroica resistência cubana e a solidariedade internacional.

Brasil na mira: classificação de organizações como “terroristas”

Um dos pontos mais sensíveis da entrevista foi a possível classificação, pelos EUA, de organizações criminosas brasileiras como “terroristas”. Carvalho explicou que a lei antiterrorista brasileira não tipifica essas organizações dessa forma, pois lhes faltam objetivos ideológicos ou políticos — tratam-se de grupos com fins econômicos ilícitos.

“Não se admite que uma potência estrangeira venha fazer combate a organização supostamente terrorista por cima da autoridade nacional”, afirmou. O analista revelou que o chanceler Mauro Vieira já acionou seu par Marco Rubio para tratar do tema, mas alertou: “Eles podem invocar que ‘afeta a segurança nacional dos EUA’ e agir baseado apenas na força”.

Eleições 2026: segurança pública como arma ideológica

Carvalho vinculou a questão ao cenário eleitoral brasileiro. “O candidato que pretende ser o continuísmo do bolsonarismo já se pronunciou a favor dessa classificação”, observou, referindo-se à presença de Eduardo Bolsonaro na posse de Kast no Chile.

“Para eles misturarem terrorismo com segurança pública e contaminarem o debate eleitoral, eu acho que isso pode acontecer”, alertou. A recomendação: “É preciso preparar as forças políticas antiimperialistas e verdadeiramente democráticas para enfrentar esse debate”.

Solidariedade a Cuba e Venezuela: resistência e apoio internacional

Por fim, Carvalho destacou a importância da solidariedade internacional a Cuba e Venezuela. Sobre Cuba, mencionou campanhas no Brasil para envio de painéis solares, medicamentos e alimentos, além da pressão para que países petroleiros enviem combustível por vias humanitárias.

“Além de tudo, luta para apoio moral total para que o governo de Cuba resista”, afirmou. “Cuba não se recusa ao diálogo, mas não aceita negociação visando rendição. Cuba vai resistir e nós confiamos em que Cuba vencerá”.

Sobre a Venezuela, reconheceu que o atentado de 3 de janeiro infligiu golpe forte à Revolução Bolivariana, mas ressaltou: “Eles não conseguiram remover o bolivarianismo do poder”. A solidariedade progressista, disse, “pode inspirar a Venezuela a prosseguir no rumo que escolheram desde Chávez”.

Entrelinhas Vermelhas: análise crítica em tempos de guerra

A edição desta quinta do Entrelinhas Vermelhas reafirmou o compromisso do Portal Vermelho com a análise geopolítica a serviço dos interesses populares. Com perguntas instigantes de Inácio Carvalho e Lucas Toth, o programa ofereceu ao público ferramentas para compreender um momento de alta tensão internacional — e para agir em defesa da paz, da soberania e da justiça social.

Como sintetizou José Reinaldo de Carvalho: “Não podemos viver sob risco potencial. É preciso que a diplomacia brasileira neutralize essa tentativa e que as forças progressistas coloquem consciência no povo brasileiro dos perigos que isso representa”.

CEZAR XAVIER/Entrelinhas Vermelhas

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