A diretora Kaouther Ben Hania, ao ouvir aquela gravação em um aeroporto, sentiu-se interpelada: “Parecia que ela me pedia para salvá-la”. O que Ben Hania criou não é uma reconstituição espetacular da violência, mas um claustrofóbico retrato da impotência. A câmera fica no centro de emergência do Crescente Vermelho em Ramallah, na Cisjordânia, onde socorristas — maravilhosamente interpretados por um elenco de origem palestina — tentam, em vão, coordenar um resgate enquanto negociam com uma burocracia infernal. A brutalidade está no que ouvimos: a voz real de Hind, entrecortada por tiros, desvanecendo-se lentamente.
O gênio e a perturbação do filme estão justamente nessa escolha. Nos coloca no lugar daqueles que tudo ouvem e nada podem fazer, espelhando nossa própria posição diante do conflito. É um convite desconfortável e necessário à solidariedade com o povo palestino. Aplaudido por 23 minutos em Veneza e tendo como produtores executivos nomes como Brad Pitt e Joaquin Phoenix, o filme cumpre o desejo da mãe de Hind: que sua filha não seja esquecida.
Indicado ao Oscar, o filme concorre com “O Agente Secreto” como melhor produção estrangeira. A Voz de Hind Rajab é um monumento sonoro. Faz ecoar, para além das fronteiras de Gaza, o lamento de uma entre dezenas de milhares de mortos, feridos e desalojados. Nos lembra que, por trás das estatísticas, há histórias. E que, por trás da história de Hind, há perguntas que nos perseguem: até quando o mundo se fará de surdo? Até quando suportaremos o genocídio promovido pelo governo de Israel sobre o povo palestino? Até quando o horror?
