
Senador oposicionista apresentará documentos comprovando relações do presidente colombiano com organizações criminosas também ao Departamento de Justiça dos EUA, já que é cidadão estadunidense
O líder da oposição no Senado, Iván Cepeda, anunciou denúncias penais e disciplinares contra o presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, e o ministro da Agricultura, Indalecio Dangond, em seu primeiro debate de controle político, realizado em 27 de outubro, centrado na criminosa política agrária adotada com menos de três meses de governo.
Ex-candidato presidencial e dirigente do Pacto Histórico, Cepeda afirmou ter documentos estampando os “vínculos comprovados” de De la Espriella com narcotraficantes ligados à apropriação ilegal de terras, à grande mineração e ao narcoterrorismo. “Consequentemente, e como anunciei durante o debate, pretendo iniciar ações penais na Colômbia e também transmitir todas as informações às autoridades estadunidenses (à promotoria) e aos congressistas democratas”, afirmou em sua conta no X, frisando que enviará a documentação ao Departamento de Justiça daquele país, já que De la Espriella é cidadão estadunidense.
Contra De la Espriella, a denúncia será levada à Comissão de Investigação e Acusação da Câmara, por concerto para delinquir, com menções também a lavagem de ativos e deslocamento forçado. No caso de Dangond, a representação será apresentada à Promotoria colombiana e envolverá fraude em decisão judicial, prevaricação por omissão, falsidade ideológica em documento e possíveis crimes de discriminação e hostilização contra o campesinato.
ABELARDO ESTÁ VINCULADO À NATA DO CRIME ORGANIZADO
Os vínculos de De la Espriella com a nata do crime foram estabelecidos no contexto da tentativa de negociar a submissão dessas organizações à Justiça durante o governo de Álvaro Uribe (2002-2010). Na época, como advogado, o ultradireitista tornou-se defensor dos narcoterroristas e promotor da legalização de terras que haviam sido tomadas à força dos camponeses.
De acordo com Cepeda, esses e outros fatos que comprovou não são simplesmente “casos pessoais ou individuais”, mas algo muito mais profundo, vinculando a denúncia ao objetivo de seu debate contra o ministro da Agricultura. Tal conexão, advertiu, demonstra que tais fatos representam as diretrizes estratégicas da contrarreforma agrária empreendida pelo governo ultradireitista com o crime organizado.
“Seus objetivos são devolver as terras aos clãs de latifundiários e narcotraficantes que se apropriaram ilegalmente de milhões de hectares pertencentes aos camponeses e às populações rurais. Colocar o uso do solo a serviço da grande mineração e do agronegócio. Atacar os camponeses, os povos originários e as comunidades afrodescendentes”, condenou.
“Deixo isso claro desde já: os democratas nos Estados Unidos e a Promotoria daquele país terão conhecimento desta denúncia, acompanhada de todo o conjunto de provas”, enfatizou Cepeda. E reiterou que questionará o ministro Dangond, contra quem também apresentará uma denúncia por proteger o pai do presidente, Abelardo de la Espriella Juris, proprietário de uma fazenda cujas terras pertencem à nação.
“SÓCIO DO COMANDANTE BARBIE”
O centro da acusação é o estreito vínculo do presidente com Hugues Manuel Rodríguez Fuentes, o ex-chefe paramilitar conhecido como “Comandante Barbie”, sustentando que De la Espriella mantém negócios escusos com o criminoso condenado nos Estados Unidos por possuir “nexos comprovados” com narcotraficantes, tendo papel financiador e promotor das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC). Hugues já esteve preso em uma penitenciária em Washington e responde a vários processos judiciais em curso.
Sobre as práticas do tal “comandante”, vários ex-paramilitares comprovaram perante o Tribunal de Justiça e Paz: “Chamávamos Hugues pelo codinome ‘La Barbie’; uma vez me disseram que, se ‘La Barbie’ desse uma ordem, eu deveria cumpri-la”. “Esse senhor não era um colaborador, ele era o chefe. O que ele dizia era uma ordem para nós”, esclareceram.
Segundo informou Cepeda, a Dominio De la Espriella, empresa do Ron Defensor, recebeu cerca de 40% de seus depósitos de capitalização do entorno familiar e societário do comandante Barbie. O dirigente oposicionista também relacionou o caso à compra, em 2013, da fazenda Nueva Jerusalén, em Becerril (Cesar), adquirida de uma irmã do ex-paramilitar.
Conforme o senador, a propriedade faz divisa com interesses de mineração de carvão da Drummond. O dirigente do Pacto Histórico também acusou o ministro Dangond de proteger o pai do presidente, dono de uma fazenda cujos terrenos pertencem à nação.
Diante do tsunami de crimes, Cepeda indicou que a ofensiva não ficará restrita à Colômbia, enfatizando que enviará as informações apresentadas ao procurador-geral dos Estados Unidos e a congressistas do Partido Democrata, em razão da nacionalidade americana de De la Espriella. “Com acervo probatório incluído”, disse, a denúncia chegará à justiça daquele país. A maneira de acabar com os narcos, frisou o líder, é “que o presidente não seja seu sócio”.
A poucos dias do segundo turno, Cepeda já havia denunciado De la Espriella à Promotoria e ao Tribunal Penal Internacional, solicitando investigação do ultradireitista por financiamento do terrorismo e enriquecimento ilícito. Na ocasião, sem encarar os fatos nem responder a nenhuma das acusações, De la Espriella chamou a denúncia de “cortina de fumaça”.
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