O presidente Salvador Allende e o Palácio de La Moneda

Em Santiago, jornalistas chilenos, cubanos, argentinos e peruanos continuaram transmitindo notícias enquanto militares invadiam a agência, ameaçavam executá-los e impunham a censura após o bombardeio de La Moneda

ANA CORBISIER

Acompanhar de perto a luta diária do presidente Salvador Allende ao longo dos 35 meses de seu mandato, até sua morte em 1973, constituiu uma experiência única para este então jovem jornalista.

A promoção de grandes mudanças no marco das leis tradicionais do país, dentro de um rico processo político descrito como a “via chilena ao socialismo”, contou com enorme apoio popular, uma férrea resistência da direita nacional e o extraordinário interesse da comunidade internacional.

Nós, os jornalistas que pudemos reportar os acontecimentos, fomos testemunhas de exceção das manobras políticas, econômicas, diplomáticas e militares que conseguiram derrubar Allende, instalando um dos regimes mais repressivos da América Latina para inaugurar o neoliberalismo na região.

Vivemos marchas e contramarchas, a favor e contra, mas também algo que hoje paira sobre toda a região: a narrativa do ódio, especialmente nos meios de comunicação chilenos, outrora exemplo de um jornalismo de qualidade.

Golpe contra Allende ilustra como divisões na esquerda podem abrir caminho para o autoritarismo

Sem internet, nem redes sociais, nem telefones celulares, usamos ruidosos telex e teletipos para enfrentar o que hoje se conhece como “fake news” e outros elementos de ferozes campanhas de desprestígio encabeçadas por El Mercurio.

Colegas chilenos e estrangeiros que acompanharam esse novo e atraente processo político tiveram que desafiar diariamente o boato, a mentira ou diretamente a propaganda política contra o governo de Allende. Uma verdadeira guerra midiática há mais de meio século.

São imagens inesquecíveis para os repórteres, muitos dos quais depois contribuíram para a memória histórica do Chile com seus testemunhos em livros, documentários e fotografias.

Não esqueço que na cêntrica oficina da Prensa Latina, a duas quadras de La Moneda, chegaram na manhã do dia 11 Augusto “Pelao” Carmona, junto com sua companheira Lucía Sepúlveda, ambos redatores da revista Punto Final, dirigida por Manuel Cabieses.

Ofereceram seus serviços e sua solidariedade e, depois de falar com nosso correspondente-chefe, Jorge Timossi, partiram para a clandestinidade. O “Pelao” continua entre os milhares de detidos-desaparecidos do Chile.

Vários outros colegas, de diversas tendências, se interessaram pela equipe jornalística da Prensa Latina, integrada naquele momento por um argentino, dois cubanos, três chilenos e um peruano. O restante do pessoal teve que, muito a contragosto, abandonar a ameaçada agência.

Elena Acuña, chilena, a única mulher do grupo, cumpriu a arriscada missão de trasladar documentos e recursos da agência a um lugar seguro, aproveitando uma breve interrupção do bombardeio dos Fokker Hunter contra La Moneda.

Já havíamos enviado para nossa central toda a informação possível, até que a nova Junta Militar (cujos membros ainda não haviam se identificado) cortou toda comunicação e nossos teletipos silenciaram.

Ainda assim, continuamos enviando notícias por via telefônica para nossa agência em Buenos Aires. Assim foi transmitida a pior notícia de todas, a que ninguém queria dar: a morte de Allende.

Ao meio-dia, após a tomada do Palácio Presidencial, um pelotão do Exército chileno, que acabara de destruir com sanha a vizinha oficina de Punto Final, invadiu a Prensa Latina. Eram 21 militares com rostos e uniformes manchados pelas cinzas de La Moneda e o característico colarinho alaranjado que identificava os golpistas.

Pretendiam que descêssemos “para o caminhão”, como diziam, para nos levar a algum centro secreto de detenção, acusados de “subversivos”. Inclusive, alinharam-nos de frente para a parede e realizaram um simulacro de fuzilamento.

Mas nossas instruções eram não resistir nem abandonar as oficinas, e nos negamos. Também havíamos tomado a decisão de não destruir nem esconder folhetos, jornais, revistas ou cartazes relacionados com a Revolução Cubana.

Os militares nos isolaram no chão, em distintos cantos da oficina, enquanto revistavam tudo, buscando armas. Começaram a rasgar cartazes e fotos, inclusive de Allende.

Lembro-me de como, em um temerário arranque, o chileno Omar Sepúlveda, o mais jovem de nós, enfrentou um soldado que tentava destruir a pontapés um cartaz do comandante Ernesto Che Guevara, criando um momento de extrema tensão para todos.

Lembro também de como outro soldado tirou do cubano Mario Mainadé, que sofria de surdez, um obsoleto e aparatoso aparelho auditivo que o militar confundiu com uma granada. Outro jornalista chileno, Orlando Contreras, havia chegado na noite anterior de Havana para visitar seu pai enfermo e imediatamente se apresentou em nossas oficinas.

Recordo o cubano Pedro Lobaina, que me despertou às 6h30 para levar-me à oficina com a breve frase: “Vamos, tem golpe!”

Muito estudioso, um verdadeiro analista, era o mais fleumático de todos, tranquilo no trabalho e pausado ao falar. Mas, quando finalmente os militares se foram, foi Lobaina quem bateu a porta atrás deles, surpreendendo-nos com irrepetíveis insultos de alto calibre.

Por último, nosso chefe, mestre dos mais jovens repórteres, adversário frequente de Allende no tabuleiro de xadrez e autor de um dos testemunhos mais completos da batalha do presidente em La Moneda.

Em meio ao allanamento, foi levado pelos militares ao próximo Ministério da Defesa, onde os golpistas explicaram aos correspondentes estrangeiros as novas regras da censura. Conseguiu sobreviver a esse encontro graças a ter exagerado seu enraizado sotaque argentino por cima de sua marcada fala cubana.

Jornalista e escritor de grande experiência dentro e fora da Prensa Latina, Timossi formou pessoal e cuidadosamente sua equipe depois de assumir a corresponsalia no Chile, nos momentos mais interessantes e mais difíceis do país.

A eles, à Prensa Latina e a todos os jornalistas que arriscaram suas vidas para difundir a verdade sobre o processo chileno, meu maior respeito neste aniversário e sempre.

PRENSA LATINA

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