Dirigido por Lilia Souza Diniz, Companheiro Canna percorre a trajetória do jornalista e militante que testemunhou golpes e revoluções e fez do jornalismo uma trincheira em defesa da soberania latino-americana
Na próxima segunda-feira, 20 de julho, às 20h, estreia Companheiro Canna, documentário dirigido e roteirizado por Lilia Souza Diniz sobre a vida e o legado do jornalista e militante Paulo Cannabrava Filho, diretor e fundador da revista Diálogos do Sul Global. Aos 90 anos, Cannabrava tem sua trajetória reconstruída em um longa que atravessa exílios, golpes, revoluções e algumas das principais disputas políticas da América Latina.
O documentário é uma produção da Caliban Cinema e Conteúdo, produtora fundada pelo cineasta Silvio Tendler e responsável por uma das mais importantes filmografias dedicadas à memória política e às lutas sociais brasileiras e latino-americanas. Amigo e companheiro de trajetória de Cannabrava, Tendler também participa do filme, emprestando ao documentário não apenas o peso de sua obra, mas um olhar construído pela convivência, pela memória compartilhada e por décadas de compromisso com um cinema que toma posição diante da história.
Aos 90 anos, Cannabrava é um daqueles personagens que ajudam a contar a história da América Latina por dentro. Jornalista, militante e homem de convicções, viveu exílios, testemunhou golpes e revoluções e participou de algumas das mais importantes disputas políticas do continente.
Sua trajetória é atravessada por uma ideia central: a soberania latino-americana não é um conceito abstrato, mas uma luta concreta. Uma luta contra o imperialismo, as oligarquias e a subordinação dos povos aos interesses políticos e econômicos estrangeiros.
“Companheiro Canna” acompanha essa vida em movimento, na qual jornalismo e militância caminham juntos. No caso de Cannabrava, escrever nunca foi apenas narrar os acontecimentos. Foi também tomar posição diante do mundo e transformar o jornalismo em instrumento de compreensão e intervenção na realidade.
Uma vida atravessada pela América Latina
O documentário recupera as memórias de Cannabrava sobre a América Latina convulsionada das décadas de 1960 e 1970, período marcado por revoluções, golpes de Estado, ditaduras e movimentos de libertação nacional.
Entre as histórias narradas estão seus encontros com Carlos Marighella e sua participação nas articulações de militantes que passavam por sua casa antes de viajar para receber treinamento em Cuba. Cannabrava recorda as reuniões realizadas com Marighella e jornalistas comunistas, assim como as redes de confiança e solidariedade formadas em meio à clandestinidade e à perseguição política.
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Mas sua reflexão não permanece presa ao passado. No filme, Cannabrava observa as formas contemporâneas assumidas pelo imperialismo e aponta o domínio do capital financeiro como uma das estruturas centrais de poder do nosso tempo.
Ao caminhar pela Faria Lima, em São Paulo, ele relaciona a financeirização da economia, a desindustrialização do país e a imposição do pensamento neoliberal à permanência de uma ordem subordinada aos interesses do grande capital.
“O que me move é essa luta contínua, uma luta contínua contra o império, contra as burguesias vendidas ao imperialismo, contra as oligarquias”, afirma Cannabrava no documentário.
O coração do militante
Embora fale de política, história, imperialismo, soberania e justiça social, “Companheiro Canna” não se limita aos grandes acontecimentos que atravessaram a vida de seu personagem.
O filme também se aproxima da dimensão humana da militância: as amizades construídas na luta, as redes de solidariedade que se formam quando tudo parece dar errado e a dor provocada pela morte de companheiros.
“Temos acesso ao coração do militante”, afirma a diretora Lilia Souza Diniz. “Ele conta como é chorar copiosamente a morte de um companheiro e como é tecer redes de solidariedade quando tudo dá errado.”
Essa camada afetiva não está separada da política. Ao contrário, revela o que sustenta uma vida inteira de compromisso: os vínculos, as perdas, as permanências e a capacidade de preservar a esperança como prática cotidiana.
Para Lilia, a trajetória de Cannabrava também ajuda a compreender o presente. “É um filme muito atual. A luta do Paulo é a nossa luta. É a luta de agora.”
Um filme atravessado pela presença de Silvio Tendler
É impossível contar a história de “Companheiro Canna” sem falar de Silvio Tendler.
Companheiro de Paulo Cannabrava, Silvio queria levar sua trajetória para o cinema e chegou a participar das entrevistas do documentário. Morreu, porém, antes de vê-lo concluído.
Depois de sua partida, Cannabrava confiou à Caliban o desafio de seguir com o filme. “Eu acho que o Silvio Tendler queria fazer um documentário sobre a minha trajetória, mas ele não conseguiu, ele se foi antes. E eu chamei a Caliban Cinema para aceitar esse desafio”, conta Canna.
Produzido após a morte de Silvio, “Companheiro Canna” marca uma nova etapa da Caliban Cinema e Conteúdo, mas carrega consigo a estrada construída pelo cineasta e sua maneira de olhar para a história a partir das lutas e das pessoas que as viveram.
Essa presença ganha uma força especial em uma das cenas finais, quando Silvio e Canna aparecem juntos em uma conversa. Sem antecipar o conteúdo do encontro, Lilia aponta essa sequência como uma chave afetiva do documentário.
A história de Cannabrava se cruza, assim, com a de Silvio Tendler. Entre os dois, o filme encontra um lugar de companheirismo, memória e continuidade.
“Fica aqui o nosso agradecimento por ele ter construído essa estrada linda que a gente segue trilhando, e também o agradecimento ao Paulo por ter confiado na gente para contar essa história”, afirma a diretora.
“Companheiro Canna” celebra uma vida feita de coragem, memória e compromisso com um mundo mais justo. Uma trajetória marcada pela defesa da democracia, da soberania dos povos e da esperança como prática cotidiana.
Serviço
Documentário: “Companheiro Canna”
Estreia: segunda-feira, 20 de julho de 2026
Horário: 20h
Realização: Caliban Cinema e Conteúdo
Exibição: https://www.youtube.com/@calibanproducoes/featured
Ficha técnica
Direção e roteiro: Lilia Souza Diniz
Produção: Ana Rosa Tendler
Entrevistas: Lilia Souza Diniz e Silvio Tendler
Direção de produção: Maycon Almeida
Direção de fotografia: Patrick Granja
Montagem e desenho de som: Vitor Foquel
Coordenação de pós-produção: Taynara Mello
Assistente de produção-executiva: Diego Tavares
Som direto: Diana Ragnole e Henrique Gentil
Videografismo: Paulo Caetano
Trilha sonora original: Marcelo Alonso Neves
Narração: Julia Lemmertz e Eduardo Tornaghi
