Keiko quer ampliar a rede fascista da família Fujimori nas estruturas de poder do Peru

Em entrevista à DSG, a cientista social Soledad Requena alerta para os riscos que a candidata representa não apenas ao Peru, mas a toda América Latina

A atual conjuntura política do Peru carrega marcas profundas do passado e levanta suspeitas sobre a influência contínua da família Fujimori nas estruturas de poder do país. Em entrevista à TV Diálogos do Sul Global, a cientista social peruana Soledad Requena afirma que o cenário eleitoral não pode ser compreendido sem considerar essa herança histórica e os mecanismos que, segundo ela, ainda operam nos bastidores da política nacional.

“Vocês todos sabem que o meu Peru está hoje do jeito que está por uma herança do governo Fujimori”, ressalta Requena, detalhando que essa herança não é apenas simbólica, mas estrutural, especialmente pela permanência da Carta Magna criada durante o regime de Alberto Fujimori: “É uma constituição neoliberal, uma constituição entreguista.”

A presença de Keiko Fujimori nas eleições, nesse sentido, representa a continuidade direta desse projeto político. “Quer se eleger, mas seguir o governo do pai, quer a continuidade”, alerta a entrevistada. Ela associa a candidatura da ultradireitista a práticas que vão além da disputa democrática formal e levanta suspeitas sobre o uso de poder econômico e influência midiática: “Com o dinheiro que ela teve, que ela ainda tem, consegue comprar consciências, consegue ter a mídia ao lado dela.”

A influência, de acordo com a análise apresentada, também se articula com setores econômicos tradicionais. “Grupos de poder econômico estão por trás de Keiko agora e sempre estiveram por trás de Fujimori”, explica, destacando o papel de um pequeno grupo de famílias na condução da economia peruana e no avanço de políticas de privatização.

Soma-se a isso o controle político acumulado ao longo dos anos. Requena lembra que o fujimorismo manteve forte presença no Congresso, o que teria impactado diretamente as regras do processo eleitoral atual. “Fizeram esta nova eleição […] à imagem e semelhança do que eles queriam”, diz, indicando que o sistema favorece candidaturas alinhadas à extrema-direita.

Outro ponto levantado pela entrevistada envolve o papel das pesquisas eleitorais e dos meios de comunicação. Ela alerta para a possibilidade de construção de cenários favoráveis à Fujimori nas pesquisas e, ao mesmo tempo, descreve movimentações não oficiais que, na realidade, apontariam queda no apoio. Ainda assim, a especialista reconhece que a candidata mantém uma base consolidada. “Há cerca de 20 a 25% de eleitores que seguem acreditando nessa loucura neoliberal”, critica.

Enquanto isso, o campo progressista enfrenta dificuldades históricas para se consolidar como alternativa. Requena avalia que a fragmentação dessa ala política é um dos principais obstáculos — “Nós somos uma esquerda historicamente dividida” — e explica que a existência de múltiplas candidaturas enfraquece as chances de avanço eleitoral, potencialmente impedindo a chegada ao segundo turno.

A consequência, ela segue, pode ser o aumento da insatisfação popular e da instabilidade política. Como há uma forte rejeição à figura de Keiko Fujimori entre setores da população, um segundo turno sem um postulante progressista acarretaria em votos nulos e brancos ou abstenção: “A própria esquerda, apesar de estar dividida, jamais votaria por Keiko.”

Ao projetar um possível cenário de vitória do fujimorismo, a entrevistada demonstra preocupação com os impactos regionais. Ela avalia que um governo de Keiko poderia aprofundar alianças com setores da direita internacional. “Se Keiko ganhar, vai se aliar ao bolsonarismo […] ao interesse americano”, assevera, antecipando possíveis tensões geopolíticas e para o papel estratégico do Peru na América Latina.

Requena também aponta o risco de agravamento das tensões internas, já que uma eventual vitória poderia intensificar conflitos sociais e retomar práticas associadas ao passado autoritário. “Pode se tornar o que sempre foi o fujimorismo, o movimento de um partido fascista”, afirma.

Apesar do cenário de incerteza, a entrevistada destaca que a rejeição ao fujimorismo permanece significativa e que o desfecho eleitoral continua em aberto. Para ela, o Peru vive um momento decisivo, marcado por disputas que vão além das urnas e envolvem o próprio rumo político e social do país.

A entrevista completa está disponível no canal da TV Diálogos do Sul Global, no YouTube:


* Imagens na capa:
– Soledad Requena: Reprodução / Facebook (adaptado)
– Keiko Fujimori: Juan Manuel Herrera – OAS / Flickr (adaptado)

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