
No Pentágono, região acima da linha do Equador ganha novo nome, em referência à zona de influência e ingerência direta dos EUA
Num dos gestos mais ousados na história recente do Hemisfério Ocidental, o governo de Donald Trump caminha para tentar redefinir até mesmo o conceito de América Latina. A operação envolve transformar o continente como parte da segurança dos EUA e, portanto, em territórios legítimos do interesse nacional americano.
No Departamento de Guerra, a região que ocupa o Panamá, Caribe, América Central, costa norte da América do Sul e mesmo Groenlândia já é chamada de “Grande América do Norte”.
A ideia vai além da retomada da Doutrina Monroe, com uma militarização da região e a fronteira da Amazônia como limite para a zona direta de ingerência e influência dos EUA.
Pete Hegseth, o chefe do Pentágono, delineou essa lógica há poucas semanas, diante do Comando Sul de suas forças armadas e ao lado de algumas das lideranças da América Latina.
“Quando adversários controlam portos ou infraestruturas em pontos estratégicos de estrangulamento para o comércio dos EUA e do hemisfério, como o Canal do Panamá ou instalações militares a poucos quilômetros da nossa costa, isso representa uma ameaça à pátria dos Estados Unidos e à paz neste hemisfério”, disse, numa referência à presença chinesa.
“Quando terroristas, assassinos e cartéis capturam infraestruturas estratégicas, recursos e cidades inteiras perto das fronteiras e da costa dos EUA, ou lucram com a imigração ilegal em massa, isso representa uma ameaça à pátria dos Estados Unidos e a todos vocês, às Américas”, disse.
Ataques à ideia do Sul Global
Hegseth também deixou clara a oposição dos EUA à ideia da formação de um bloco chamado de “Sul Global”.
“Os mesmos adversários que ameaçam nossa herança compartilhada também ameaçam nossa geografia compartilhada. Eles buscam substituir a histórica relação “Norte-Sul” que sempre compartilhamos por uma espécie de novo “Sul Global” que exclui os Estados Unidos e outras nações ocidentais, mas inclui potências não ocidentais e outros adversários”, disse.
Segundo ele, a resposta dos EUA deve ser a de “abraçar” a região.
“A resposta ao nosso desafio não é ignorar nossa geografia em nome de interesses globais, mas sim abraçar nossa geografia compartilhada em nome de interesses nacionais”, defendeu. “É por isso que o presidente Trump elaborou um novo mapa estratégico que vai da Groenlândia ao Golfo da América, passando pelo Canal do Panamá e pelos países vizinhos”, revelou.
“No Departamento de Guerra, chamamos esse mapa estratégico de Grande América do Norte”, admitiu.
A explicação:
“Porque todas as nações e territórios soberanos ao norte (da linha) do Equador, da Groenlândia ao Equador e do Alasca à Guiana, não fazem parte do “Sul Global”. Trata-se do nosso perímetro de segurança imediato nesta grande vizinhança em que todos vivemos. Cada um desses países faz fronteira com o Atlântico Norte ou o Pacífico Norte”.
Segundo ele, cada um desses países está situado ao norte das duas principais barreiras geográficas que existem nesta região: a Amazônia e a Cordilheira dos Andes.
“Trata-se de geografia básica que não ensinamos nas escolas com a frequência que deveríamos. E isso restaura nossas relações Norte-Sul, e precisamos acertar nesse ponto”, disse. “No Norte, os Estados Unidos devem reforçar sua presença e postura, em cooperação com vocês e nossos parceiros soberanos, para defender nosso perímetro de segurança imediato compartilhado”, alertou.
“No Sul, ou seja, ao sul da linha do Equador, do outro lado desta grande vizinhança, fortaleceremos as parcerias por meio de uma maior partilha de responsabilidades. Isso permitirá que vocês desempenhem um papel maior na defesa do Atlântico Sul e do Pacífico Sul, e na proteção de infraestruturas e recursos críticos em parceria conosco e com outras nações ocidentais”, completou.
Hegseth explicou que essa foi a estratégia na Segunda Guerra Mundial, “assim como afundamos navios com torpedos”.
“Se levarmos a sério nossa segurança nacional e priorizarmos a geografia, não podemos continuar agindo como se nada estivesse acontecendo. Isso significa que, para todos os países deste hemisfério, a segurança das fronteiras deve ser a principal prioridade”, completou.
ICL NOTÍCIAS
