Investigação do New York Times aponta que ataque divulgado contra o tráfico destruiu fazenda; moradores e trabalhadores relatam tortura e negam uso por grupos armados
Uma operação militar apresentada pelos Estados Unidos e pelo governo do Equador como ação contra o narcotráfico resultou na destruição de uma fazenda de gado e produção de leite em San Martín, na região amazônica do norte do país, próxima à fronteira com a Colômbia.
Reportagem publicada pelo New York Times nesta terça-feira (24) entrevistou moradores, trabalhadores e advogados de direitos humanos e aponta que a propriedade não tinha ligação comprovada com grupos armados.
“O ataque militar parece ter destruído uma fazenda de gado e produção de leite, e não um complexo do narcotráfico”, diz o jornal.
Na época, o governo equatoriano afirmou que se baseou em “inteligência e apoio” dos Estados Unidos para atingir a fazenda, que, segundo as autoridades, funcionava como um campo de treinamento para “cerca de 50 traficantes”.
A operação ocorreu dias antes de Donald Trump reunir, na Flórida, governos latino-americanos de extrema direita alinhados a Washington na cúpula “Escudo das Américas”, onde anunciou a formação de uma coalizão militar para atuar no continente sob o discurso de combate ao narcotráfico.
Com a presença de Daniel Noboa, a iniciativa explicita a subordinação de governos da região à estratégia dos Estados Unidos, que instrumentaliza a pauta da segurança para legitimar intervenções e reafirmar seu controle sobre a América Latina — dinâmica da qual o bombardeio em San Martín é parte concreta.
A participação de Washington na operação foi confirmada publicamente pelo Departamento de Defesa e pelo governo Noboa.
Em publicação nas redes sociais em 6 de março, o porta-voz do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, Sean Parnell, afirmou que a ação foi realizada “a pedido do Equador” e teve como objetivo “desmantelar redes narco-terroristas”, classificando o alvo como um “complexo de abastecimento narco-terrorista”.
Na publicação, o porta-voz elogia o governo de Daniel Noboa pela parceria e afirma que a operação integra uma estratégia mais ampla para “detectar, interromper e destruir” organizações criminosas na região.
A reconstrução dos fatos feita pelo jornal, com base em visitas ao local e entrevistas diretas, apresenta uma sequência de ações que contradiz a versão oficial.
Segundo trabalhadores da propriedade, todos colombianos, militares equatorianos chegaram de helicóptero no dia 3 de março, invadiram a fazenda armados, separaram os presentes e os acusaram de esconder drogas e armas. Quatro deles foram amarrados, agredidos com coronhadas e interrogados sob violência.
Três trabalhadores relataram que, após a detenção, foram submetidos a tortura. Disseram ter sido estrangulados com as próprias roupas e sofreram choques elétricos antes de serem liberados.
Um deles afirmou que recebeu ameaças dos militares e relatou que “eles basicamente disseram que, se eu voltar ao Equador, vão me matar”.

Ainda de acordo com os depoimentos, os soldados incendiaram estruturas da propriedade — incluindo alojamentos, galpões e a área de produção de queijo — após despejar gasolina nas construções. Dias depois, em 6 de março, helicópteros retornaram ao local e lançaram explosivos sobre os escombros ainda em chamas.
Moradores afirmam que foi nesse momento que militares registraram as imagens posteriormente divulgadas por autoridades equatorianas e pelos Estados Unidos como prova do suposto ataque a um campo de treinamento do narcotráfico.
A reportagem também aponta que a operação atingiu outras áreas além da fazenda.
Durante os dias anteriores ao bombardeio, militares queimaram casas abandonadas nas proximidades e chegaram a bombardear ao menos uma delas, em uma ação mais ampla na região.
No local, jornalistas do New York Times encontraram vestígios compatíveis com os relatos, incluindo estruturas queimadas, crateras e restos de edificações destruídas. A investigação não identificou evidências públicas que sustentem a versão de que a área funcionava como base de grupos armados.
O proprietário da fazenda, identificado apenas como Miguel, negou qualquer vínculo com atividades ilícitas e contestou diretamente a narrativa oficial.
“É mentira que 50 pessoas treinaram aqui. Onde iriam treinar? Aqui ao ar livre? Não faz sentido”, questionou.
Ele descreveu a propriedade como uma fazenda produtiva, com criação de gado leiteiro, estrutura para fabricação de queijo e criação de aves. Parte dos animais sobreviveu, mas galinhas foram mortas e instalações essenciais foram destruídas.


A ausência de provas materiais também é apontada na reportagem. Apesar de o governo equatoriano afirmar que encontrou armas e indícios de atividade ilegal, não foram divulgadas imagens ou registros — prática comum em operações desse tipo, segundo o próprio histórico das autoridades.
Advogados e organizações de direitos humanos classificaram a ação como ataque contra população civil. Uma denúncia formal foi apresentada a autoridades equatorianas e à Organização das Nações Unidas.
“Não há um único funcionário público que tenha vindo verificar o que aconteceu”, afirmou a advogada María Espinosa ao jornal.
Mesmo autoridades com ligação ao aparato de segurança reconheceram aspectos que coincidem com os relatos locais colhidos pelo NYT.
O ex-diretor de inteligência do Exército equatoriano, Mario Pazmiño, confirmou que houve interrogatórios no local e que helicópteros foram utilizados para lançar foguetes contra a propriedade.
Ele também indicou que a destruição foi total: “o que o Exército fez foi atacar aquela casa, ou fazenda, e destruí-la em sua totalidade”.
Moradores questionam a motivação da operação e levantam a hipótese de que a ação tenha sido utilizada para reforçar a narrativa de combate ao narcotráfico em meio à escalada da militarização no país.
“Tudo o que queremos é que a verdade venha à tona”, disse Vicente Garrido, liderança comunitária. “Dizem que era um campo de treinamento, mas está ficando claro que eram apenas casas”.
LUCAS TOTH/Vermelho
